Ela se deita na areia da praia esticando as pernas o máximo que pode, e os braços também. Espreguiça-se por que tem preguiça de todo o resto do mundo. Está de bikini e tem um belo corpo, com umas dobrinhas aqui e ali, mas um lindo corpo. É branca de doer os olhos, mas assim na areia parece um anjo - ou anja, pra não ser alvo de protestos - se deliciando com o banho de sol que mais tarde vai avermelhar sua pele e doer muito enquanto ela pensa "por que raios eu não fico morena?". É feita assim, pra ser branca e as vezes vermelha mesmo. Morena nunca, mas é de invejar a sua luta contra a natureza das cores. Tentei explicar certa vez que era coisa das melaninas, que eu tinha visto isso em alguma aula no colegial, mas ela insistia em se queimar e se lamentar da dor. Naquele dia, ela me olhou através dos óculos escuros e disse algo que eu não consigo me lembrar, porque estava pensando comigo mesmo "com olhos tão bonitos como os dela eu jamais usaria óculos escuros".
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Morfossintáxe
Escrever, verbo, infinitivo. Infinito em possibilidades. Ainda assim, tão simples, com a pequena intenção de registrar algo em papel ou, nesse caso, no computador, na nuvem, no céu escuro embaixo de alguma geleira. Palavra por palavra, registra-se, ou por um lado mais metafórico, registro-me. Combinações precárias de 26 letras ordenadas em grupos e galeras e multidões, formando assim um texto. Ou, abre aspas, um pretexto, fecha aspas. Colocar-se pra fora ou aprofundar-se olhando pra dentro de si. Ver o invisível que se perde no ar da fala e emudecer o som díspar das vozes dos homens, para dar lugar ao belo som de dentro de nós. - Aquela voz interior que lê os livros para você, sabe - . Voz de mãe e pai juntos, falando enquanto a mente sonolenta sorve o espesso caldo dessa sopa de letrinhas que chamamos de alfabeto. Escrever. Ato contínuo e viciante. Droga que expõe o imaginário ao mundo real e que, se acumulada por muito tempo, explode pra dentro causando febre e ansiedade. Dá falta de ar.
Libertar-se enfim. Escrever é libertar-se.
Como é limitado quem vive de dicionários.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Poema de gaveta
Nos teus braços
adormece a solidão
de nós
Dos abraços cansados,
do afago e do amor
Do gosto de vida suada,
do suor cheio de sal.
O sal do oceano.
Que banha o que resta
do que um dia
fomos nós
Sós,
apenas nós
sós.
adormece a solidão
de nós
Dos abraços cansados,
do afago e do amor
Do gosto de vida suada,
do suor cheio de sal.
O sal do oceano.
Que banha o que resta
do que um dia
fomos nós
Sós,
apenas nós
sós.
sábado, 1 de junho de 2013
Cotidianas
Andando pelas ruas de dentro de casa eu me lembro das marcas de minha infância. Ruas por onde disputei sozinho grandes corridas de carros velozes e coloridos. Corridas que por vezes perdi e, por não aceitar a derrota, me convencia de que eu estava no outro carro, o vencedor. Nesta mesma casa, andei colado nas paredes fingindo ser um grande espião, invisível e mortal, cheio de artimanhas e instrumentos de espionagem moderna como os binóculos que eu fazia com minhas próprias mãos ou as luvas com ventosas que eu improvisava com meias velhas. Assim, eu espionava a casa, entrava nos quartos imperceptível e assustava a mocinha que trabalhava em casa. Anos depois eu entendi que ela se deixava assustar para me alegrar, mas disse também que as vezes se sentia vigiada sem saber se eu estava realmente por perto.
A moça era bonita em minha memória, mas realmente feia nas fotografias. Eu, mais do que todos na casa, convivia com ela diariamente e acompanhava com minhas brincadeiras os serviços domésticos que ela executava com maestria. Mesmo assim, minha mãe ainda reclamava de um copo mal lavado ou um móvel empoeirado. Ela seguia então limpando e eu observando os novos cheiros da casa limpa.
Os anos se passaram e ela também passou, lavou, cozinhou e se dedicou a cada centímetro daquela casa. Cada dia mais cansada e eu cada dia mais distante. Passaram-se as férias e eu pouco tempo tinha para espionar os serviços domésticos. Mudamos de casa e ela continuou conosco. Tive que partir para abraçar o mundo enquanto ela continuava abraçando as almofadas para tirar o pó do sofá. Aos poucos, ela dentro de casa se tornou o silêncio que eu tanto gostava de ouvir. A casa se limpando sozinha, trocando de pele, de cheiros e gostos. Minha cama sempre posta para os dias de visita e a mesa sempre farta em noites frias. Ela, silenciosa, preencheu os vazios da vida cotidiana.
Hoje, quando limpo minha própria casa, sinto que é ela quem me observa, analisando se aprendi direito tudo o que me ensinou enquanto eu brincava. E assim eu retiro o pó dos cantos da casa. Lavo-me e passo-me enquanto lavo e passo as minhas roupas. Termino o dia limpo, com apenas um pensamento fora do lugar. Gostaria de me lembrar do nome dela.
domingo, 7 de abril de 2013
Fragmentos
Penso o passo em um lampejo
E realizo os tons em notas de realejo
Lendo Álvaro de Campos eu vejo
O poema que sempre desejo,
Escrever para a morte antes do beijo
---
No cigarro, a fumaça do passado amarga o instante
Na bebida, o gosto do amado tão distante
E na razão boba de quem arruma os sonhos na estante
Esperando dividi-los com seu amante
A certeza de que o caminho restante
Trará de volta a paz e o amor de antes
---
Como deste amor com a boca rasgada
E os pedaços do teu sorriso remonto de madrugada
Me olhando no espelho de cara borrada
Encarando todos os defeitos de uma vida passada
Apago a luz então cansada
E me deito, sozinha,sonhando outra vez, acordada.
---
E realizo os tons em notas de realejo
Lendo Álvaro de Campos eu vejo
O poema que sempre desejo,
Escrever para a morte antes do beijo
---
Escrevo assim pra me entender
Escrevo para mim, para sobreviver
Sebrescrevendo o que quero dizer
Em letras que possam adormecer
No coração de quem quiser ler
E talvez, contrário a mim, me esclarecer
---
No cigarro, a fumaça do passado amarga o instante
Na bebida, o gosto do amado tão distante
E na razão boba de quem arruma os sonhos na estante
Esperando dividi-los com seu amante
A certeza de que o caminho restante
Trará de volta a paz e o amor de antes
---
Outro trago, outro gole e outro pensamento
Voltando-se mais uma vez para dentro
Para onde nasce o tédio e o contentamento
E a certeza de amar o belo e o sem talento
Cala o medo do sofrimento
Devolvendo à boca o sorriso lento
---
Como deste amor com a boca rasgada
E os pedaços do teu sorriso remonto de madrugada
Me olhando no espelho de cara borrada
Encarando todos os defeitos de uma vida passada
Apago a luz então cansada
E me deito, sozinha,sonhando outra vez, acordada.
---
Não penso, não paro, não socializo
A resposta do louco é sempre o sorriso
A rima da rima tende ao infinito
Quando penso o que quero, paro e reflito
Quando não penso, não paro e simplesmente, realizo
sexta-feira, 1 de março de 2013
Edifícios
O estômago revirava em contrações. Comia o tempo a colheradas sem matar a fome. Fome do tempo, passado e futuro. O presente, de grego, não satisfaz a necessidade do corpo e da alma. Enfraquece os ossos do sujeito que logo de desmonta desfazendo-se, completando o ciclo, ao pó retornando depois de tantos anos incrivelmente normais e medianos. Sem muitos altos e baixos, além da única montanha russa que visitou na vida, uma lágrima seca se desprende da face percorrendo os vincos do rosto já idoso. É o fim, ele pensa, e o fim é. Nem mesmo um último suspiro para dramatizar a cena. Nem familiares, nem o choro da despedida. Ele se vai, como expelido do próprio corpo, em meio a um acesso de tosse, entre a reverberação de seus pulmões e o escarro do adeus. Quando olha pra trás, tudo o que vê é um corpo cansado de não fazer nada, estufado e quase da mesma cor do sofá em que eternizou a marca de suas nádegas cada dia maiores. Pediu pra voltar e tentar de novo, mas pensou melhor e retirou o pedido, alegando que pouco faria para ser diferente, não saberia nem mesmo por onde começar. Não queria outra vida de "e se..". Se tivesse entendido cedo que se não quisesse empoeirar deveria chacoalhar - se vez ou outra que fosse, talvez tudo seria diferente. Não acreditou que seria, por isso não o fez. Permaneceu sentado, em segurança.
Pouco antes de sucumbir à crise de tosse, pensou que poderia ter feito mais da vida. Gostaria de ter ido mais vezes ao parque de diversões que ficou anos perto de sua casa e que viu se transformar em uma loja de automóveis usados que aproveitou alguns brinquedos enferrujados para, apesar dos altos riscos tetânicos, dar diversão aos filhos pentelhos dos clientes gordos e bigodudos. Depois, viu crescer grandes e fálicos edifícios enquanto seus pais choravam na cozinha com a pressão das empreiteiras que se utilizavam das dívidas dos imóveis para desapropriar as casas que estavam em seus caminhos. Àquela altura, já tinha pelos pubianos o suficiente para querer descobrir o que havia além daqueles edifícios, só não tinha colhos o suficiente para tal. Ficou em casa mesmo e foi por ali que viu o pai cair de joelhos com a mão direita apertando a camisa no peito, com a boca aberta tentando beber os últimos goles de ar até cumprimentar o chão com as bochechas. Bateu as botas ali mesmo. Sem reação, em choque, permaneceu sentado com o controle da TV na mão tempo o suficiente para que a mãe, que ouvira o estrondo de tantos quilos impactando os azulejos da cozinha, chegar ao recinto e desmaiar, não sem antes soltar um grito tão agudo que o fez saltar do sofá desafiando suas quase inutilizadas capacidades de equilíbrio bípede. Acordado do sonambulismo em que vivia, correu para socorrer a mãe e o pai. Sem saber a quem atender primeiro, entrou em desespero e começou a gritar na cozinha, chorando compulsivamente. O som primitivo que saiu de suas entranhas, somado ao anterior grito de sua mãe, de tão verdadeiros os sons assustaram os vizinhos que logo chamaram a polícia. Ao fim do dia, que parecia ser como outro qualquer, se viu sozinho em casa, com o pai agora tão frio como sempre havia sido na vida, porém de fato dentro de alguma geladeira e a mãe internada, com uma contusão na cabeça que não demorou muito a sarar, mas que deixou uma região careca na vasta cabeleira branca, concedendo à pobre senhora uma expressão de bruxa pior do que a que já tinha.
Passado o susto e superadas as tristezas pelo finado pai, voltou a viver em harmonia com seu sofá e o controle da televisão. Pouco depois, foi-se a mãe, carregada pelas circunstâncias da vida. Circunstâncias essas bastante concretas, em uma esquina perto da padaria do "seu" José, onde cinematograficamente foi atingida por um ônibus coletivo e sobrevoou alguns pedestres desavisados caindo no asfalto frio da manhã. Não seria preciso dizer mais sobre o caso, não fosse pelo jeito marcante que ficou no chão, e pela tarifa abusiva de três reais e dez centavos do transporte coletivo. Um absurdo. Morreu então de olhos abertos encarando o início do dia, com um pobre sorriso no rosto, como se aceitasse o fim que recebera. Não se pode dizer então que era de todo ruim a rotina de sentar ao sofá e assistir em sequencia todos os seus programas favoritos, afinal, foi assim que ficou sabendo do ocorrido com a mãe, no noticiário das oito, que anunciou a morte da velha e iniciou uma grande revolta nacional contra a tarifa do coletivo. Poucos diziam, mas muitos pensavam que era melhor que tivesse acertado logo o prefeito, coitada da velha.
Teve que se mudar. Carregou consigo somente o sofá, a televisão e as poucas roupas que possuía. Quando se deu conta que não tinha lembranças da família e voltou pra pegar umas fotos antigas, não encontrou mais a casa, que havia sido derrubada e dormia sossegada embaixo de uma nova construção. Acabou se perdendo sem a sua única referência. À noite, já na nova casa - se assim a pudesse chamar, decidiu o que já estava decidido há tempos: não sairia mais de casa para nada. Assim o fez, até perecer sem que o mundo se desse conta. Até cuspir fora o que restou de sua alma naquele acesso de tosses fortes e nojentas.
Agora, espectro apenas, sem corpo que lhe pusesse travas, nem raízes que lhe prendesse, fez o que sempre esperou pacientemente poder fazer. Depois de anos sem se entender bem com as pernas, bateu as asas e voou para longe. Longe de si. Longe de todos.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Solidez
Brinca comigo com leveza
Transparente
Emana em mim
Sua pureza
Parado
Eu sólido
Em simples dureza
Vejo ela
Líquida e pura
Com tristeza
Brinca comigo com leveza
Acaricia minha
Rigidez
Depois vai embora
Me deixando assim
Molhado
Outra vez
Com sua leveza
Então se vai
Levando de mim
O tempo
Deixando só
O medo
Do tempo que fica
Eu sujo
E sem ela
Que leve se foi
Enferrujo
Brinca comigo com leveza
Acaricia minha
Rigidez
Depois vai embora
Me deixando assim
Molhado
Outra vez
Com sua leveza
Então se vai
Levando de mim
O tempo
Deixando só
O medo
Do tempo que fica
Eu sujo
E sem ela
Que leve se foi
Enferrujo
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