Hei! Alou!?
ALOOOOUUU!?
Existe vida por estes terrenos inabitados? Mas que besteria, se existisse vida não seria chamado de "terreno inabitado".
Escuta! Escuta! Acho que tá vindo alguém!
Alguém? Alguém quem?
E eu lá sei, alguém ta vindo, abaixa, abaixa!
Porra! Essa não era a merda da terra inabitada!?
Sei lá meu! Já não era desde a hora que a gente chegou mesmo! Vai ver é só mais alguém vindo aqui xeretar, como estamos fazendo!
Xeretar? A gente não veio procurar alguém?
Procurar alguém? Nas terras inabitadas? Que ideia maluca é essa!?
Porra! Ta vindo pra cá, se esconde!
Mas não tem nada, não tem onde se esconder.
Se vira rapaz, eu to procurando meu lugar.
Se vira o caramba, vou dar de louco!
Hei! Hei!! Psssssiu! Que cê tá fazendo seu maluco, volta pra cá.
Cala a boca!
Volta porra!! Ah! Eu vou cair fora.
Espera!!! Espera e olha.
- Boa noite!
- Oi, boa noite!
- Bonito o céu, não é mesmo?
- Oi?
- O céu! Bonito né?
- Ah! - olha pra cima - é sim, bonito!
- O senhor mau olhou.
- Escuta meu filho eu to com um pouco de pressa, não é hora de olhar o céu.
- Não é hora.. mas, sempre é hora.. hei!
- Desculpe amigo, estou com pressa. Arrume outro pra conversar.
- Mas eu já tenho com quem conversar! Veja!
- Adeus.
Que cara mais mal educado.
Você está louco, foi falar com ele assim.
Sim! Fui! Fui porque estou cansado de você.
Cansado de mim? E o que foi que eu fiz pra você se cansar de mim?
Você.. você.. não me deixa em paz, ta sempre junto. Dá pra me deixar um pouco?
Te deixar? Você não ouviu o que aquele senhor falou? Você precisa arruma alguém pra conversar.
Sim, eu estava tentando, mas ele não quis.
Claro que não quis, parecia um lunático falando sobre o céu. Que papo mais chato!
Escuta, me deixa. Eu quero falar do que eu quiser, com quem eu quiser. Quem sabe assim você...
Eu o que, hein? Me diga! Eu o quê!?
Você some, tá entendendo! Some!
Seu babaca.
Se eu sou, você também é!
Ah é!? E porque?
Por que eu dito o que você fala! Eu escrevo as tuas palavras! Eu decido a sua hora de falar.
Ah! Então você tem total controle sobre mim?
Sim!
Me faça desaparecer então! Vamos! Quero ver, estou esperando!
É isso o que você quer?
Se você for homem o suficiente! Aposto que não tem colhos. Você precisa de mim! Não fosse eu, com quem você falaria nos seus textos idiotas hein? Nos seus devaneios!
Ok, ok! Se é o que você quer. Lá vai.
O que você está fazendo?
Fechando os olhos!
Isso eu sei tonto, mas pra que fechar os olhos se você ainda consegue me ver?
Não consigo! Está tudo escuro e eu não te vejo!
Não? Tem certeza?
Tenho.
Eu estou dentro da sua cabeça! Sou fruto dessa tua timidez ridícula que te afasta das pessoas e te coloca a falar comigo. Amigo imaginário lembra!?
Cale a boca, não posso te ver!
Pode sim! E é mais fácil você não me ver abrindo os olhos e prestando atenção em outras coisas! Não foi isso o que o doutorzinho "sei lá o que" te falou?
Doutor Jacó! Doutor Jacó! Porra, vou abrir os olhos!
Otário!
Por que? Por que está rindo de mim?
Eu mando em você. Se eu quero que feche os olhos, você fecha. Se quero que abra, você abre! Você é patético!
Eu sou patético.
Você é patético.
Eu sou...
Desculpe.
Pelo que?
Por te chamar de patético.
Tudo bem, você só diz o que eu penso mesmo.
Está querendo dizer que controla o que eu digo?
Bem.... Hei! Hei! Não comece que já está me dando dor de cabeça.
Tá, tá, parei. Dor de cabeça não dá.
São insuportáveis.
Sim, são insuportáveis.
Quando será que o Jacó vem?
Não sei. Ouvi dizer que não vem mais.
Não vem mais? Mas.. eu preciso de atenção, de cuidados.
É eu também, mas acho que ele não vem mais.
Poxa! Não vem mais? Então vamos procurá-lo!
Sim, sim, vamos! Claro! Por onde começamos?
Que tal por ali, ó?
Ali onde?
Ali, não ta vendo?
Não, aonde? Alí? Mas não tem ninguém ali.
Sim, não tem ninguém. É por isso que chamam de terreno inabitado.
Ah chamam? Terreno inabitado?
Sim.... Vamos ou não?
Vamos....
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Descalços
Finalmente chegamos ao nosso destino. Sem bater à porta entramos, de pés descalços. Era como uma regra por lá, os pés descalços, entre tantas outras regras. O senhorzinho de cabeça branca do outro lado provavelmente percebeu a briga que tivemos em frente à casa, antes de decidirmos por atravessar o jardim e resolver o que devia ser resolvido. Não havia jeito de ele não ter percebido já que quando eu percebi a presença dele ele já me encarava com um ar de desgosto, com a cara mais enrugada do que o normal, que eu provavelmente não vou esquecer tão facilmente. Provavelmente por causa dos palavrões, mas ele não se preocuparia com isso se soubesse de fato como nos tratávamos em casa. Palavrões eram comuns em nossas casas desde a nossa infância. Cada um na sua, apesar de já nos conhecermos naquela época.
Entramos na casa. Cumprimentamos os que já estavam por lá e evidentemente nos arrependemos de ter entrado. Deviamos ter terminado de discutir na rua, mandado o velho à merda e ido pra casa. Nossa casa. É engraçado que pensei nisso enquanto atravessava o jardim, mas achei melhor não falar nada. Talvez ela estivesse mais confortável com a situação do que eu. Não estava e isso ficou claro em seu rosto e corpo logo que alcançamos a sala de estar. Os passos arrastados e os dedos apertados, esmagando as palmas das mãos revelaram a vontade de ir embora. Nos deixamos adentrar à sala sem disfarçar a vontade de estar em outro lugar. Onde estariam os outros? Até pensei em perguntar, mas desanimado demais desisti e me deixei amolecer no sofá. Ela caminhou até a poltrona mais próxima e se sentou, aprumou o corpo com o pouco de energia que lhe restava e soltou o ar que comprimia no peito, depois de ser notada e esquecida por todos que estavam presentes.
Seria aquilo então. Já estávamos lá dentro e não dava pra sair sem ser questionado antes que tudo começasse. Os cumprimentos, a música, a comilança, os pés sujos o suficiente pra dar nojo de colocar as meias novamente. Alguns presentes dos mais esforçados e uns abraços desajeitados dos menos íntimos. Havíamos combinado, então teríamos que ficar por ali. Só não estava no clima, mas eu poderia ter feito melhor do que fiz, isso é certo. No entanto, preferi ficar ali, no sofá, sem sujar muito os pés até dar a hora de ir embora. Só me levantei pra pegar um copo de uísque, em algum momento propício que não me lembro qual. Provavalmente alguém começou a falar sobre novela ou big brother brasil e eu aproveitei a deixa. Me servi, na cozinha, sozinho, de uma bela dose que tomei de um gole só, derramando algumas lágrimas. Foi neste momento que ela entrou, pela outra porta, de frente pra mim e me viu com os olhos vermelhos. Sem dizer nada ela se aproximou, me tocou o rosto, coçando a minha barba com a ponta dos dedos e depois me abraçou apertado. Se afastou novamente e disse "eu te amo", me olhando nos olhos ainda molhados pela dose de uísque. Sorriu, como não sorria ha tempos e saiu, pela porta que eu entrei.
Servi-me de outra dose de uísque, com gelo pra quebrar o gosto horrível que tinha. Atravessei a cozinha e saí, pela porta que ela entrou. Atravessei o outro ambiente que não me lembro o que era, depois mais um, até sair pela porta dos fundos da casa. Pisei a grama descalço, sentindo o frio do solo me subir pela espinha. Sentei no primeiro apoio que encontre e encostei o copo na boca, ameaçando beber mais um gole, mas fui impedido. Impedido por meu próprio choro que explodiu de dentro de mim. Um choro contido, inesperado e explodido... "Eu também te amo!", pensei. E chorei o quanto pude. Bebi e chorei, até dar a hora de ir embora...
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Ainda Sentados
E o pensamento permanece.
O mundo precisa de mudança.
Nós precisamos mudar.
Precisamos acreditar.
Precisamos.
Esse movimento, do dia 15 de outubro, alguém sabe aonde vai ser, aqui em São Carlos?
Eu quero participar.
Sem cabeça pra escrever algo diferente. Prefiro, hoje, bater nessa tecla da revolução, como bati forte nesse texto aqui em baixo. "Sentados", foi um desabafo que ainda não acabou. Ainda estou entalado com muitas coisas que vejo por ai. Tantas pessoas próximas sofrendo amargamente enquanto outros esbanjam saúde e indiferença. Eu não sou indiferente. Tenho saúde, quero ajudar e estou procurando por onde começar. Estou revendo minhas crenças e meus conflitos, preciso me resolver. Você não? Hoje li um texto sobre os Astecas e toda a revolução. Túpac Amaru, que inspiração. E o mundo está encardido, eu percebo. Não pra menos, dentro da universidade (a melhor da América Latina), hoje, tinha um ponto de coleta de brinquedos e outros 5 de festas. Advinha aonde foi todo mundo? Se pensou "doar brinquedos, claro", errou de longe. Eu mesmo não doei, mas não por falta de consideração ou por não me importar. Não tenho brinquedos aqui, mas pretendo arrumar alguns em breve, para colaborar com o movimento. O dinheiro que eu ia gastar na festa que estava vendendo ao lado, vai ser mais bem gasto com um humilde brinquedo que pode significar mais do que se imagina. Talvez não pra quem tenha tido tantos, mas sim para quem nunca os teve. Aliás, eu não gastaria o meu dinheiro com aquelas festas, sendo vendidas pelo simbolo decadente do "macho alfa" desmiolado. Aplausos pra ele que passou na melhor faculdade da America Latina (de novo essa história), ou uma vaia para o processo de vestibular, vai saber. Desculpem se estou generalizando, mas dos poucos que eu tive o desprazer de conhecer, posso afirmar que se enquadram nessa minha humilde opinião. Sobre os outros, não comento. Deixo que eles se decidam.
Atenção! Nada contra a diversão e as festas, mas poxa! um pouquinho de consciência também não mata e alimenta a alma, o corpo, a mente. Por que as pessoas não dão uma pausa nesse carnaval todo que virou o centro acadêmico dessa universidade e ajudam no movimento? De onde veio tanta apatia? De onde veio tanta indiferença? Porra! Eu realmente estou surtando nisso!
Pra quem não ia falar nada acabei me empolgando e desabafando de novo, não é mesmo? De qualquer forma, aqui vai um trecho do texto que li, pra dar uma ideia do quão revoltante certas coisas podem ser:
"Em 1802 outro cacique descendente dos incas, Astorpilco, recebeu a visita de Humboldt. Foi em Cajamarca, no local exato onde seu antepassado, Atahualpa, tinha visto pela primeira vez o conquistador Pizarro. O filho do cacique acompanhou o sábio alemão no passeio às ruínas do povoado e aos escombros do antigo palácio incaico, e enquanto caminhavam falava-lhe dos fabulosos tesouros escondidos sob o pó e as cinzas. "Não sentis às vezes o desejo de cavar em busca dos tesouros para satisfazer vossas necessidades?", perguntou-lhe Humboldt. E o jovem respondeu: "Tal desejo não acontece comigo. Meu pai diz que seria pecaminoso. Se tivéssemos os ramos dourados com todos os frutos de ouro, os vizinhos brancos nos odiariam e nos fariam mal"
Dói em vocês também, esta última parte? Não sei, em mim dói bastante. Dói porque é verdade, porque vemos isso acontecer todos os dias e não levantamos bandeiras contra isso. Se não é conosco está tudo bem, e se é, reclamamos no serviço de atendimento ao cliente e esperamos resposta em dez dias, quando problemas maiores já terão nos atingido e aquilo já não importa mais. Sim, fico emputecido. Sim, fico agitado. E sim, também não faço nada. Venho aqui e desabafo.
Enfim, vou ler um livro, ver se encontro meios por onde começar a mudança. Vou me informar, vou me esforçar e vou mudar de fato. Espero que eu mude. Espero que vocês mudem também. Espero que eu deixe de esperar e comece a agir.
Fica o trecho, do mesmo texto: "Camponês! O patrão já não comerá mais da tua pobreza!"
Fica o trecho, do mesmo texto: "Camponês! O patrão já não comerá mais da tua pobreza!"
É uma bela frase! Pode ser por onde começar...
Fonte dos textos: "As Veias Abertas da América Latina", Eduardo Galeano, 1870."
Obs.: agradeço ao Marcelo Júnior por ter me enviado o texto de referência acima. Grande amigo, grande pensador!
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Sentados
Hei! Você ai sentado nessa cadeira, quantas vezes eu já falei? Levanta daí e vai fazer alguma coisa da sua vida. É fácil ficar sentado vendo a vida passar diante de você. Uma vida que não é sua, uma vida vazia... Vamos, levante-se! Eu só posso te dizer uma coisa meu amigo, por aqui, como sempre, tudo anda uma bela bosta. As pessoas caminham pelas ruas indiferentes a tudo. Andam como se suas vidas fossem o centro da terra e já são incapazes de ver qualquer coisa que se passe ao redor. Pra elas está tudo bem... Seus olhos já não vêem mais os famintos que passam por elas, não vêem a realidade e muitas vezes não vêem a si mesmos nem quando estão na pior das situações. Continuam balançando suas cabeças em show de rock pra esquecer o que já não se lembram faz tempo, não se lembram ao menos do que é musica boa.
E a vida vai seguindo. Vem o amor, vem o fogo, vem a dor, só não vem a consciência de que o mundo está um caos sem fim, sem previsão de melhorar. Mas as empresas continuam cada dia mais verdes e os bosques cada dia mais escuros! Escuros como os olhos dos indiferentes. Branco mesmo é o olho do cego de verdade, que não enxerga porque não pode, porque nasceu assim e não porque aprendeu a ver somente o que quer e a escolher com quem se importar. E daí? No final das contas o mundo também não se importa com você nem nunca irá se importar... E você se forma no colegial, se forma engenheiro, se forma doutor e se deforma como pessoa. De que adianta? Tantas medalhas e nenhuma honra? Quantos homens você matou nessa guerra? Na sua guerra pessoal? Quanto sangue em suas mãos que você recusa assumir? Cadê o mérito de você estar aqui, um lugar que tanto se bate no peito pra dizer "eu consegui", mas a custo do que? Anos de dinheiro gasto tentando te fazer aprender alguma coisa e o que você aprendeu foi apenas a ignorar com tanta linha, tanto garbo, tudo o que não te interessa.
A minha fome te interessa? A minha opção sexual te interessa? A cor dos meus olhos ou da minha pele te interessa? Interessa, é claro! Pra saber a qual distancia você deve se manter de mim. E agora você balança a cabeça dizendo que não, "que absurdo, eu não sou assim, eu odeio gente assim", mas eu sinto muito meu caro... você é assim... você, você e você... em seguida, o que vem na sua cabeça? Depois de todo esse discurso eu falo "você, você e você" e vem o pensamento inútil na sua cabeça daquela música que fala a mesma coisa... você, você e você.... vocês não prestam. Você esperam diversão gratuita e pagam pra ver miséria. Será que vai ter ator da globo? Não! Não tem ator da globo.... aqui só tem verdades, por mais que seja tudo de mentira...
É um belo show, no entanto. Eu mesmo sou incapaz de acreditar em tudo o que falei. Sou incapaz de bater no peito e dizer que sou diferente disso tudo. Eu sou apenas mais um, mais um na grande multidão de inconformados que não fazem nada. Escrevo um pequeno texto pra dizer o quanto isso me incomoda e depois jogo no lixo com medo de ter ficado ruim, de ser reprimido, de ser demitido. Preciso escolher minhas palavras e limpar o cu com papel neve, como manda o figurino. São tantas as coisas entaladas nessa garganta rouca que já nem se pode dizer se a rouquidão é minha ou é da doença que se acumula em minhas vísceras. A doença da culpa! Mas culpa é de quem afinal? Minha que não quero falar ou daqueles que não querem ouvir? A culpa é de quem, vamos!?!? Me fale!
....
E depois de tudo isso... você continua sentado. Continua pensando que entendeu tudo... que é tudo metalinguístico e que não vai chegar a lugar nenhum. É só mais uma encenação barata de um sentimento qualquer. Pois saiba.. aliás, saibam TODOS VOCÊS, que o sentimento é tão real quanto pode ser. Escrito sim verdadeiramente. Publicado em pequenos meios, onde se acredita que possa fazer a diferença. Este sentimento é real. O problema é real. Irreal... é vocês continuarem sentados sem fazer nada!
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Literatura Quântica
Ele parece são. Escreve na máquina de escrever enquanto fala:
"As primeiras palavras de um homem são um universo de possibilidades. Dali podem surgir outras e outras que formarão frases e parágrafos que por sua vez formarão um texto. Um belo texto. Um texto de merda. Uma história qualquer. Cada palavra falada pode direcionar uma ação pra outro lugar e a vida toda tomar um rumo diferente por isso. Pode-se criar mais do que uma simples história com poucas palavras. Pode-se criar vidas, pessoas, personagens de um mundo imaginário com profundidade psicologica muito mais interessante do que a de seu próprio criador. Das entranhas insanas de um homem aparentemente comum pode existir um infinito de gente louca. Um e tantos. Quem foi que disse que dois corpos nunca ocupam um mesmo lugar no espaço. Os grandes escritores são prova viva de que isso é uma grande mentira! Um e tantos, no mesmo corpo, ocupando o mesmo espaço."
Ele conta com os dedos. Parece ver uma grande idéia em sua frente. O olhar é esperançoso. Volta a escrever na máquina, com vigor, e continua falando:
"Se cada pessoa no mundo criasse um único personagens, teriamos para um mundo tão pequeno o dobro de pessoas que temos hoje. Se subtrairmos as pessoas que não criam nada, ou se criam não demonstram por qualquer motivo, e considerarmos no entanto que existem pessoas que criam mais de um, teremos uma boa quantidade, em média, no final, de pessoas extremamente interessantes que sequer existem! E o pior, você leva o maior papo com eles na sua cama, sozinho a noite. Muitas vezes eles são a sua única e indispensável companhia. Seu único amigo, seu único amor! Você se sente ridículo por isso?"
Ele se lembra de alguma coisa, faz as contas. Escrevendo acelerado ele pondera:
"Bom, toda essa conta pode variar um pouco se considerarmos que existem personagens baseados em alguma pessoa que é real. Ora, mas ele não deixa de ser um personagem também, com projeção na vida real. Ou seria a pessoa real, com projeção no imaginário? Talvez não importe. É como a dualidade partícula - onda de um elétron. É particula ou é onda? Na verdade ele é os dois, é um ser real inserido em outra realidade! Confuso? Não mais do que a mecânica quântica do maldito elétron! Deixe que seja os dois. É homem real em mundo imaginário e é criatura imaginária em mundo real. Começa aqui a teoria da dualidade homem - criatura, ou pessoa - personagem ou... foda-se o nome! Nomes são apenas formalidades. Afinal, definir é limitar, não é mesmo?"
Ele duvida. continua pensando. Está delirando em pensamentos. Escrevendo.
"Isso me faz pensar: e se houver ainda um terceiro estado do homem - criatura - pessoa - personagem? Qual seria? Talvez seja mais simples do que parece. Se existe a criação, inspirada em uma criatura, não nos esqueçamos então do criador. Esse, o terceiro estado do homem, ilimitado e munido de suas palavras, capaz de inventar e reinventar, apagar e refazer, criar e destruir."
Ele está louco. Tem as mãos úmidas de suor enquanto bate forte na máquina de escrever.
"O homem nascido criador não pode dispensar seus dons, não pode abandonar tantas criaturas que ele pode construir. Seria um absurdo, uma falta de compromisso. Mas como? Como? Como criar o tempo todo? É difícil, falta inspiração. É mais do que se pode suportar, é redenção, é não reconhecer a própria vida, é doar-se, é sangrar, é morrer para que o outro possa viver por 590 páginas de uma história que não é a sua. É desesperador. Causa inveja, causa raiva. Por que esta merda de vida que eu escrevo não é a minha? Como eu sou capaz de escrever tantas coisas boas e belas e isso não existir no mundo real. Eu quero desistir, quero parar, quero parar de escrever."
Ele está nervoso e louco. Quase desesperado. Ele bebe, ele fuma, ele escreve, ele fala.
"Não posso. Não devo. Não, não. As pessoas dependem de mim. E a leitura no quarto sozinho? E os amigos e amantes dos pobres coitados? Eles dependem de mim, aliás deles. Da criação, não mais do criador. Da criação. Foda-se o criador. É o fardo. É... este é o maldito fardo, a maldita cruz: não viver, aliás, viver para escrever!"
A máquina bate o final da página. O som o acorda da insanidade. Ele para. Ele observa ao redor. Olha para folha assustado. Arranca a folha da máquina e a coloca contra a luz. A folha está em branco.
"Tanto foi falado e há tanto pra se dizer. Foda é escrever com palavras tão limitadas um pensamento tão complexo e lindo. Quero uma cerveja, um cigarro, um amor na vida. Quero... quero que se foda!"
Ele continua olhando pra folha. Ele quer que o mundo se foda.
"As primeiras palavras de um homem são um universo de possibilidades. Dali podem surgir outras e outras que formarão frases e parágrafos que por sua vez formarão um texto. Um belo texto. Um texto de merda. Uma história qualquer. Cada palavra falada pode direcionar uma ação pra outro lugar e a vida toda tomar um rumo diferente por isso. Pode-se criar mais do que uma simples história com poucas palavras. Pode-se criar vidas, pessoas, personagens de um mundo imaginário com profundidade psicologica muito mais interessante do que a de seu próprio criador. Das entranhas insanas de um homem aparentemente comum pode existir um infinito de gente louca. Um e tantos. Quem foi que disse que dois corpos nunca ocupam um mesmo lugar no espaço. Os grandes escritores são prova viva de que isso é uma grande mentira! Um e tantos, no mesmo corpo, ocupando o mesmo espaço."
Ele conta com os dedos. Parece ver uma grande idéia em sua frente. O olhar é esperançoso. Volta a escrever na máquina, com vigor, e continua falando:
"Se cada pessoa no mundo criasse um único personagens, teriamos para um mundo tão pequeno o dobro de pessoas que temos hoje. Se subtrairmos as pessoas que não criam nada, ou se criam não demonstram por qualquer motivo, e considerarmos no entanto que existem pessoas que criam mais de um, teremos uma boa quantidade, em média, no final, de pessoas extremamente interessantes que sequer existem! E o pior, você leva o maior papo com eles na sua cama, sozinho a noite. Muitas vezes eles são a sua única e indispensável companhia. Seu único amigo, seu único amor! Você se sente ridículo por isso?"
Ele se lembra de alguma coisa, faz as contas. Escrevendo acelerado ele pondera:
"Bom, toda essa conta pode variar um pouco se considerarmos que existem personagens baseados em alguma pessoa que é real. Ora, mas ele não deixa de ser um personagem também, com projeção na vida real. Ou seria a pessoa real, com projeção no imaginário? Talvez não importe. É como a dualidade partícula - onda de um elétron. É particula ou é onda? Na verdade ele é os dois, é um ser real inserido em outra realidade! Confuso? Não mais do que a mecânica quântica do maldito elétron! Deixe que seja os dois. É homem real em mundo imaginário e é criatura imaginária em mundo real. Começa aqui a teoria da dualidade homem - criatura, ou pessoa - personagem ou... foda-se o nome! Nomes são apenas formalidades. Afinal, definir é limitar, não é mesmo?"
Ele duvida. continua pensando. Está delirando em pensamentos. Escrevendo.
"Isso me faz pensar: e se houver ainda um terceiro estado do homem - criatura - pessoa - personagem? Qual seria? Talvez seja mais simples do que parece. Se existe a criação, inspirada em uma criatura, não nos esqueçamos então do criador. Esse, o terceiro estado do homem, ilimitado e munido de suas palavras, capaz de inventar e reinventar, apagar e refazer, criar e destruir."
Ele está louco. Tem as mãos úmidas de suor enquanto bate forte na máquina de escrever.
"O homem nascido criador não pode dispensar seus dons, não pode abandonar tantas criaturas que ele pode construir. Seria um absurdo, uma falta de compromisso. Mas como? Como? Como criar o tempo todo? É difícil, falta inspiração. É mais do que se pode suportar, é redenção, é não reconhecer a própria vida, é doar-se, é sangrar, é morrer para que o outro possa viver por 590 páginas de uma história que não é a sua. É desesperador. Causa inveja, causa raiva. Por que esta merda de vida que eu escrevo não é a minha? Como eu sou capaz de escrever tantas coisas boas e belas e isso não existir no mundo real. Eu quero desistir, quero parar, quero parar de escrever."
Ele está nervoso e louco. Quase desesperado. Ele bebe, ele fuma, ele escreve, ele fala.
"Não posso. Não devo. Não, não. As pessoas dependem de mim. E a leitura no quarto sozinho? E os amigos e amantes dos pobres coitados? Eles dependem de mim, aliás deles. Da criação, não mais do criador. Da criação. Foda-se o criador. É o fardo. É... este é o maldito fardo, a maldita cruz: não viver, aliás, viver para escrever!"
A máquina bate o final da página. O som o acorda da insanidade. Ele para. Ele observa ao redor. Olha para folha assustado. Arranca a folha da máquina e a coloca contra a luz. A folha está em branco.
"Tanto foi falado e há tanto pra se dizer. Foda é escrever com palavras tão limitadas um pensamento tão complexo e lindo. Quero uma cerveja, um cigarro, um amor na vida. Quero... quero que se foda!"
Ele continua olhando pra folha. Ele quer que o mundo se foda.
domingo, 7 de agosto de 2011
O melhor de Bob Dylan
Ela vai à vitrola dele e fuça o que tem la dentro. Levanta o disco à favor da luz. Absorvendo os raios fotóticos amarelados de lâmpada em final de vida, o nome Bob Dylan. Algum "Best off..." ou coisa assim, de quem conhece pouco o artista e confia na opinião dos outros sobre o que deve ou não ser ouvido sobre aquele tal. Poe pra tocar, baixinho.
Ele oferece: - uma dança, minha cara?
-Minha cara? Que careta. Quem dança Bob Dylan?
-No meio de todas essas loucuras, o que você não dançaria? Neste momento, não recusaria nem uma valsa de debutante.
-Eu já debutei há tempos meu "caro", hoje eu labuto pra não dançar mais.
Ele estende a mão e insiste: - uma dança Bob Dyliânica com o caro aqui. Depois disso, curtimos o mundo lá fora, se ele não curtir a gente antes.
-Depende. Tem mais? - oferece a mão a ele.
-Tem, mas pra depois. - puxando -a para si. Agora aproveita o que ja está na sua cabeça... ou vai estar em qualquer minuto.
-Até agora, não senti nada - e explode numa risada insanamente apaixonante.
-Exatamente agora, nessa tua risada, eu senti tudo.
-Então você ja está doidão? Eu devo ser forte pra essas coisas...
-Deve ser.. a certas drogas eu caio de joelhos na primeira risada.
Silêncio.
-Vamos esquecer o mundo. - ela sugere.
-Que mundo? O nosso ou o deles?
-Os dois, criemos um terceiro. Um mundo igualitário, ditatorial, onde todo mundo é obrigado a dançar ao som de Bob Dylan.
-Pensei que você achasse isso loucura.
-Eu acho, mas aqui na loucura, não existe nada mais normal. Um viva a Bob Dylan e a todos que dançam por ele.
-Um brinde.
Brindam copos imaginarios.
Ele continua: - escuta... eu tenho que te falar algo.
-É mesmo necessário?
-Talvez... talvez não.
-Sabe, as vezes as coisas faladas assim, aqui no nosso terceiro mundo - ela ri do próprio trocadilho - podem não ser reais nos outros mundos. No deles, ou no nosso.
-É.. talvez não seja assim tão importante.
Ela afasta o rosto do peito dele e o encara nos olhos.
-Sou curiosa o suficiente pra perguntar uma vez. O que é?
-Deixa, quem sabe outra hora o escritor que nos imagina e fala por nossas bocas crie coragem e escreva em mim o que eu quero lhe dizer.
-É... talvez ele escreva direto em mim mais pra frente nessa nossa história.
-Como assim?
-Certas coisas não precisam ser ditas. Cedo ou tarde ele vai me fazer perceber sóbria algo que eu só percebo assim, inibriada, totalmente aberta aos meus sentimentos.
-Seria mais fácil assim, senhor escritor! - ele fala olhando pra cima.
-Seria mais fácil! - ela grita olhando pra cima também.
Os olhos aos céus se abaixam lentamente e se encaram, observando os céus e viagens astrais um dentro do outro.
-Tão mais fácil... - fala um dos dois.
Ele oferece: - uma dança, minha cara?
-Minha cara? Que careta. Quem dança Bob Dylan?
-No meio de todas essas loucuras, o que você não dançaria? Neste momento, não recusaria nem uma valsa de debutante.
-Eu já debutei há tempos meu "caro", hoje eu labuto pra não dançar mais.
Ele estende a mão e insiste: - uma dança Bob Dyliânica com o caro aqui. Depois disso, curtimos o mundo lá fora, se ele não curtir a gente antes.
-Depende. Tem mais? - oferece a mão a ele.
-Tem, mas pra depois. - puxando -a para si. Agora aproveita o que ja está na sua cabeça... ou vai estar em qualquer minuto.
-Até agora, não senti nada - e explode numa risada insanamente apaixonante.
-Exatamente agora, nessa tua risada, eu senti tudo.
-Então você ja está doidão? Eu devo ser forte pra essas coisas...
-Deve ser.. a certas drogas eu caio de joelhos na primeira risada.
Silêncio.
-Vamos esquecer o mundo. - ela sugere.
-Que mundo? O nosso ou o deles?
-Os dois, criemos um terceiro. Um mundo igualitário, ditatorial, onde todo mundo é obrigado a dançar ao som de Bob Dylan.
-Pensei que você achasse isso loucura.
-Eu acho, mas aqui na loucura, não existe nada mais normal. Um viva a Bob Dylan e a todos que dançam por ele.
-Um brinde.
Brindam copos imaginarios.
Ele continua: - escuta... eu tenho que te falar algo.
-É mesmo necessário?
-Talvez... talvez não.
-Sabe, as vezes as coisas faladas assim, aqui no nosso terceiro mundo - ela ri do próprio trocadilho - podem não ser reais nos outros mundos. No deles, ou no nosso.
-É.. talvez não seja assim tão importante.
Ela afasta o rosto do peito dele e o encara nos olhos.
-Sou curiosa o suficiente pra perguntar uma vez. O que é?
-Deixa, quem sabe outra hora o escritor que nos imagina e fala por nossas bocas crie coragem e escreva em mim o que eu quero lhe dizer.
-É... talvez ele escreva direto em mim mais pra frente nessa nossa história.
-Como assim?
-Certas coisas não precisam ser ditas. Cedo ou tarde ele vai me fazer perceber sóbria algo que eu só percebo assim, inibriada, totalmente aberta aos meus sentimentos.
-Seria mais fácil assim, senhor escritor! - ele fala olhando pra cima.
-Seria mais fácil! - ela grita olhando pra cima também.
Os olhos aos céus se abaixam lentamente e se encaram, observando os céus e viagens astrais um dentro do outro.
-Tão mais fácil... - fala um dos dois.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Do celular
Cara que incrível isso. Postar do celular.
Tão incrível quanto inútil.
Pensa escrever um texto inteiro, decente, supondo que escrevo textos decentes, no mini teclado de um celular?
E de fato é bem difícil. Me esforcei um pouco a mais aqui só pra confirmar isso.
Adeus. To voltando pras minhas teclas de verdade...
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