sábado, 14 de fevereiro de 2015

São Jorge

Saio às pressas de encontro à rua, atravessando a porta de casa. Devolvo aos pulmões o ar que lhes roubei. Caminho pela calçada pensando no que pode acontecer. Uma multidão se materializa na minha frente, cruzando pela esquina mais movimentada da cidade. Revolução, o povo está na rua, todos cantam, todos estão felizes e ensandecidos pela união. Amor, lute pelos teus direitos e peça a São Jorge para que não chova. Vi a multidão como um corpo só a se locomover pra frente, para o progresso, para o protesto. Uma garota me pinta o rosto em coloridos, escreve alguma coisa na minha testa. Sorrio, ela me beija a boca molhada e vai embora. Um rapaz me entrega um copo de cerveja. Espere, não se faz revolução dessa maneira. Que canção estão cantando? Caminhando e cantando... O que estão pedindo e protestando, que motivo leva tantas pessoas à rua em tamanha união? Onde estão as cobranças pelos altos impostos, pela água, pelo crescimento geral desta nação. Não é revolução. E aquela garota? Não era amor? Alguém me responde: não. Era apenas carnaval.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Estação

Sigo. Sozinho. Às vezes eu olho ao redor, nos rostos das pessoas que passam, os transeuntes, e penso, ou penso que penso, será que eles estão lá, será que todos estão vendo também? São espíritos errantes que não aceitaram o fim. Que fim? Serei eu um espírito que não admite o fim? Que fim?

As mil-e-uma toxinas do cigarro amarelaram a minha barba, o tempo corroeu os meus dentes e roubou o meu sorriso, a vida comeu minha alma a garfo e faca e agora eu apodreço, sentado, fumando. Devolvo os filmes na locadora e pego mais três, sento para assistir, muitas vezes o mesmo filme sem ter certeza se já assisti ou não. O cara da locadora me olha como se eu fosse louco. Fico confuso, também não sei se sou louco ou não. Devolvo, pego mais três, de novo não sei se já vi, tenho a vista ruim e não sei onde coloquei os meus óculos. Também tanto faz, quanto menos eu vejo, mais eu posso me dar ao luxo de assistir o mesmo filme vez após outra.

Acendo o cigarro, sirvo o gole, bufo a vida pra fora da boca, aspiro álcool, devolvo cara feia, trago, assopro, trago, guardo, assopro, trago, bebo mais um gole, tusso com os olhos vermelhos, morro mais uma vez no beijo do copo, no sexo oral com a nicotina, te chupo, me chupe, me morda, devolva a minha vida, sorrio, enfim, sorrio.

Acordo no sofá com o DVD na tela de menu inicial. Dou o play, durmo de novo, acordo sete minutos depois, a cabeça dói, a boca gruda, parece que masquei cola bastão, bebo água suja, da torneira da cozinha. A cabeça dói, o olho dói, os joelhos doem. Deito na cama com os olhos lacrimejando, com remelas nos cantos que coço sentindo os dedos ásperos, tudo dói, sinto medo, meu peito dói.

O relógio chama as 12 horas, ereto. O pau duro do dia, pronto pra gozar na minha cara mais um resto de dia, que eu bebo em goles de cachaça, em tragos de cigarros filados dos bêbados das padarias. Sinto fome, muita fome. Deixo meu corpo rolar pra fora da cama seguindo um ritual até colocar a coluna no lugar. Chacoalho a mão esquerda que dorme e sinto o sangue alfinetando as pontas dos meus dedos. Sigo até a geladeira, no caminho tusso, tusso muito, um escarro preto percorre o meu sistema respiratório trazendo um gosto putrefaço à minha boca, o gosto de dentro, gosto de mim, gosto de alma inerte. Questiono porque comecei a fumar, perco a fome por um segundo e encaro a geladeira de longe. Preciso comer qualquer coisa, cuspo o resto da mistura de alcatrão e órgãos internos. Minhas tripas roncam de novo, abro a porta da geladeira e vejo pedaços de mim ali dentro, não tenho vontade de nada, mas o ronco reclama na boca do meu estomago e me obriga a pegar uma caixa de leite que dorme na porta. Cheiro, parece estar bom, bebo um gole para testar, não consigo conter a fome e bebo meia caixa do leite que desce doendo, abrindo caminho pela garganta inflamada, seca, escarrada. Me sinto todo fodido. O DVD continua tocando no menu, de novo e outra vez.

Olho pra estante do outro lado da sala, visão que tenho dali da geladeira mesmo. Meus olhos embaçados não enxergam, mas sabem o que veem lá. A foto dela me encara, ao lado de mais três porta-retratos, que sorriem. Lembro da casa cheia, lembro de quando ainda enxergava o caminho, lembro de ter pedido pra ela não ir, sinto uma dor forte no braço esquerdo, lembro de ter chorado, a dor toma conta de mim, o leite cai, ela fecha a porta, as crianças choram, os vermes me comem, a porta se abre, não há ninguém do outro lado, eu choro, meu peito chora, meus joelhos doem ao acertar o chão, o caixão se fecha, os olhos encaram, as crianças e ela não voltam, eu não volto, não posso, não consigo.

O leite molha a minha cara colada ao chão, meu braço direito perde as forças e treme, minhas pernas procuram por onde caminhar, a respiração enfraquece. Por que? Ela não volta, eu peço que volte, eu pergunto a Deus onde ela está? Vou encontrá-la? Meus filhos, minha família, aquele maldito trem, aquele trilho sem manutenção, ela fugia pra casa da mãe dela porque eu bebia demais, eu choro, eu me lembro de tudo agora, eu não quero ir embora, eu não quero que ela vá embora. Os vermes consomem o que restou dos meus olhos, minhas tripas, eu inteiro espero alguém me encontrar ali naquele chão, espero o leite começar a feder, espero a primeira pá de terra, espero não voltar nunca mais, nunca mais.

Fecho os olhos, morro, acordo no sofá. Acendo um cigarro, tenho sede. A cabeça dói. Os porta-retratos continuam sorrindo e eu, sumindo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Chovemos

É terça feira
A chuva cai, desmotivada
O moinho gira, mas não quebra pedras
A vida passa, mas
Não dá passagem

Quem vem às pressas
É a mãe daquele rapaz que
Foi morto na rua
Três tiros e adeus
Ela chora. Chove

Depois vem o bêbado
Dançando rua acima
Desviando dos pés que
Mal lhe calçam os sapatos
Ele não chove

Quando ela sai de casa
É o centro, da cidade,
Das atenções dos olhos
Atentos que desejam,
A cabeça de guarda chuva

Eu, observo
Bebo e observo, café e pessoas
Nessa ordem, um gole, um homem
Uma mulher, um mendigo,
O cão que bebe, a água da chuva

Chovemos, choramos, sorrimos

Somos todos gotas d’agua

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Espelho meu

Converso com alguém grudado na parede do meu banheiro. Eu sei que este alguém sou eu mesmo em meu pequeno espelho de parede com moldura laranja, desses que os velhos fazem a barba em filmes cults. Meu espelho no final sempre foi o único que me guiou até mim mesmo. A resposta pronta pra pergunta que rasga eras e destroça cabeças fracas com balas de trêsoitão: quem sou eu afinal? Concordo que o reflexo não é dos melhores, mas vale a reflexão. "O senhor tem um belo nariz, grande e batatudo. Os olhos mais pra lá do que pra cá e a boca... a boca é bonita, tem belos dentes, só poderia escová-los melhor, não acha?". Acho, mas a preguiça mata, dá tártaro na boca e no vão dos dedos, nas juntas, no joelho. Chamam de esporão o que não ta na boca (mesmo sendo outra coisa que não é tártaro), eu chamo de dor aguda, ou dor do caralho mesmo, pra resumir. O médico falou pra tomar cuidado ao me mexer. Não se preocupe doutor, não pretendo mudar minha vida de sedentário ativo pra desafiar meus ossos que se rebelam contra mim, apontando pra onde dói mais que é o lado de dentro. Me mantenho então quietinho mesmo, mais uma semana e outra, privando o mundo da minha beleza e de todo o meu talento para o nada. E mais um dia - hora - minuto se vão, outros copos de água suja e o peixinho sempre no aquário. Algum dia esse peixe acorda de ponta cabeça, ou eu, vai saber...

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Óculos escuros

Ela se deita na areia da praia esticando as pernas o máximo que pode, e os braços também. Espreguiça-se por que tem preguiça de todo o resto do mundo. Está de bikini e tem um belo corpo, com umas dobrinhas aqui e ali, mas um lindo corpo. É branca de doer os olhos, mas assim na areia parece um anjo - ou anja, pra não ser alvo de protestos - se deliciando com o banho de sol que mais tarde vai avermelhar sua pele e doer muito enquanto ela pensa "por que raios eu não fico morena?". É feita assim, pra ser branca e as vezes vermelha mesmo. Morena nunca, mas é de invejar a sua luta contra a natureza das cores. Tentei explicar certa vez que era coisa das melaninas, que eu tinha visto isso em alguma aula no colegial, mas ela insistia em se queimar e se lamentar da dor. Naquele dia, ela me olhou através dos óculos escuros e disse algo que eu não consigo me lembrar, porque estava pensando comigo mesmo "com olhos tão bonitos como os dela eu jamais usaria óculos escuros".

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Morfossintáxe

Escrever, verbo, infinitivo. Infinito em possibilidades. Ainda assim, tão simples, com a pequena intenção de registrar algo em papel ou, nesse caso, no computador, na nuvem, no céu escuro embaixo de alguma geleira. Palavra por palavra, registra-se, ou por um lado mais metafórico, registro-me. Combinações precárias de 26 letras ordenadas em grupos e galeras e multidões, formando assim um texto. Ou, abre aspas, um pretexto, fecha aspas. Colocar-se pra fora ou aprofundar-se olhando pra dentro de si. Ver o invisível que se perde no ar da fala e emudecer o som díspar das vozes dos homens, para dar lugar ao belo som de dentro de nós. - Aquela voz interior que lê os livros para você, sabe - . Voz de mãe e pai juntos, falando enquanto a mente sonolenta sorve o espesso caldo dessa sopa de letrinhas que chamamos de alfabeto. Escrever. Ato contínuo e viciante. Droga que expõe o imaginário ao mundo real e que, se acumulada por muito tempo, explode pra dentro causando febre e ansiedade. Dá falta de ar. 

Libertar-se enfim. Escrever é libertar-se. 

Como é limitado quem vive de dicionários.