sexta-feira, 23 de junho de 2017

Em Tempo

                - E então, qual é o sentido disso?
                - Depende, o que é isso a princípio?
                - Não sei, mas não depende de mim o que possa ser.
                - Ou depende e você não quer aceitar.
                - Recuso-me.
                - Pois prossiga sem compreender, se isso te faz bem.
                - Me mata por dentro, mas não quero crer que se eu aceitar entenderei.
                - Nada garante.
                - Nem impede.
                - Concordo, é preciso tentar.
                - Empírico.
                - Experimento auto-social.
                - E se não der certo?
                - Já não está certo, há de piorar?
                - Tem razão, não piora.
                - Mas também não sai de onde está.
                - Melhor assim.
                - Melhor seria se fosse diferente.
                - Ou pior.
                - Há de piorar?
                - Deixa pra lá.
                - Pra depois ou para sempre?
                - Pra outro.
                - Ou outra.
                - Preciso me retirar, você vem?
                - Não.
                - E pra onde vai?
                - Espero você voltar.
                - Está frio.
                - Eu me aqueço, e você?
                - O vento me acalma.
                - Parado não há vento.
                - Movimento é mudança.
                - Mudar é bom.
                - O bom é conhecido.
                - Desconheço.
                - Agora eu me vou.
                - Não se vá, encontre-se.
                - Sem saber aonde estou?
                - Sabendo ou não.
                - E como saber?
                - Deixa que eu aponto.
                - E se estiver errada?
                - Pergunto eu, e se?
                - Mal não há de fazer.
                - Nem pode ser pior.
                - Então devo ficar?
                - Se for o melhor.
                - Não há como saber.
                - Basta decidir.
                - E depois?
                - O depois dirá.
                - O futuro é mudo.
                - O futuro é o mundo.
                - Mundo pequeno.
                - Mundo cão.
                - Para onde então?
                - Por aqui mesmo.
                - E você?
                - Me dê a sua mão.
                - Não me pertence.
                - Será minha então.
                - Tanto faz.
                - Não serei dona.
                - O que será?
                - Outra mão apenas.
                - Tenho duas.
                - Não tens nenhuma, esqueceu?
                - Está certo.
                - Agora são três.
                - Mãos do mundo.
                - De ninguém.
                - E de todos.
                - Agora sim.
                - O quê?
                - Você sorriu.
                - Não me pertence.
                - Mas se aproprie.
                - Posso?
                - Não.
                - Então?
                - Deve.
                - Me obrigue.
                - Agora!
                - Está bem.
                - Viu.
                - Não posso olhar.
                - Não te pertencem os olhos também.
                - Exato.
                - Use os meus.
                - E você.
                - Não importa.
                - São belos.
                - O que vê?
                - Vejo-me.
                - És belo também.
                - São seus olhos.
                - São reflexos.
                - Espelhos.
                - E espelhos não mentem.
                - Mas se quebram.
                - Ainda assim.
                - Mal se pode ver.
                - Se juntar os pedaços.
                - E se faltar algum?
                - A gente inventa.
                - A gente?
                - Toda a gente.
                - Então você vem?
                - Vou depois.
                - Depois do que?
                - De você.
                - Não entendo.
                - Não há de entender.
                - Vou-me.
                - Lembre-se de mim.
                - De que me vale?
                - Só assim posso viver.
                - Pois se quiser me acompanhe.
                - Nos encontraremos de novo.
                - Quando?
                - Quando, é questão de tempo.
                - Não se aplica?
                - Não a nós.
                - Nem tempo nem espaço.
                - Vejo que agora entende.
                - Você ao menos existe?
                - Pergunte aos filósofos.
                - Não existem mais.
                - Então está respondido.
                - Bom, então, adeus.
                - Até logo.
                - Breve?
                - Em tempo.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sobre mim

Esse blog é uma forte fonte de consulta quando eu quiser me lembrar de mim.

O Entorno de Saturno

A um bilhão de quilômetros da Terra, a humanidade mergulha entres os anéis de Saturno em uma curva de sessenta e três graus na primeira das vinte aproximações pretendidas para estudo da composição das majestosas circunferências planetárias que rodeiam aquele planeta. Aqui em casa, não sei como vou fazer para trabalhar doze horas do meu dia, entre a saída para o trabalho e o retorno, lavar a louça, a roupa, passar a roupa também, tomar banho, comer, dormir e ler algum livro ou fazer qualquer coisa que seja para mim. Em um plano bastante agressivo a sonda vai sofrer com as forças gravitacionais e ser impulsionada novamente para fora e se preparar para um novo mergulho, mais análises e fotografias cósmicas. Depois de jantar preciso agir rapidamente em direção ao que pretendo fazer durante a noite, se não o fizer, perco o resto do dia sentado no sofá sapeando por mídias digitais e viajando distâncias imaginárias para Dubai ou Ubatuba sem sair do sofá. O grupo que vai analisar os dados ficará um longo período no escuro, sem receber notícias da corajosa sonda até que ela esteja pronta para emitir novos sinais vitais aos seus tutores terrestres, tudo deve levar um ou dois dias, não sabemos ao certo. Não são raras as noites que passo de olhos abertos procurando respostas virtuais para perguntas imediatas e superficiais que surgiram apenas por eu estar procurando resposta para outras perguntas imediatas e superficiais, assim mergulho no cosmos de outras vidas pelas fotografias e dados expostos em seus universos particulares. Após cumprir sua missão de longos anos, Cassini ficará sem combustível e mergulhará uma última vez para o denso e obscuro mundo do desconhecido planeta Saturno com uma triunfal queima de componentes que entraram para o livro dos recordes como o primeiro show pirotécnico do planeta dos compromissos. Meu compromisso permanecerá mesmo que eu desapareça em pedaços em um particular show de fogos, artificiais e belos, enquanto aguardo no escuro a próxima ligação, mensagem ou sinal divino que me aproxime ou afaste de outro alguém. A humanidade colidirá com uma nova fronteira, demarcando assim com sua urina metálica territórios alheios, como sempre fez e continuará fazendo por direito assumido em leis terráqueas com validade universal indeterminada. Meu mundo colidirá com outro formando novas partículas de fortes ligações atômicas e será objeto de estudo para outros planetas em galáxias distantes e menos invasivos do que nós, seres humanos, de racionalidades duvidosas, enquanto uma chuva de meteoros ofuscará as lentes de um telescópio apontado de Saturno para cá, construído com os destroços de uma sonda decaída, feito um anjo que trouxe tecnologia do céu, aos seres do além mar, ou do além poeira cósmica, não sem antes ameaçar por vinte vezes colidir com a poeira estelar por ali encontrada. Espero que os estudos revelem a origem do meu ser, dos anéis que orbitam o meu planeta, das luas que seguem o rastro infinito desse nado em águas negras, desviando de buracos destruidores de planetas e enfim, as sondas se encontrem quando Saturno se alinhar ao signo de Cassini em uma epopeia de explosões universais. Como é belo e denso o universo e sua gravidade.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Retalhos

Retrabalho hábitos envelhecidos
Descrevo contornos embriagados
Escolho peças de lados cortantes
Desvio os olhos da realidade
Em paraísos disfarço essa tristeza
Enroscada na garganta inflamada
Nos bicos dos seios já caídos
De uma grande mãe fragmentada
Descalço pés enlameados
Não os lavo antes de dormir
Encho o colchão de rua quente
Cubro sonhos de concreto armado
Sou pedra de chão mal colocada
Faço tropeçar pernas bambas
Porque escolho ser torto e largo
Mas que me errem os pés suaves
Não faço pouco de quem antes tenta
Nem largo o cheiro do pó do homem
Gosto mesmo é de pisadas fortes
Pisadas que trazem o gosto da morte

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Folhas

Olho todos os dias pela janela

Logo na entrada da casa, 

                                          à esquerda.

Lá está ela, sempre à espera

A olhar fixamente um horizonte sem fim


Detenho um gesto no corredor.
Antes de girar a chave da porta e

.

Trancar para fora, o que é de fora

Deixar para dentro o que é dentro.

Ela sorri, como sempre faz essa hora,
(agora)

Eu não vejo,

Ou finjo que não, vejo,

Me sirvo d`um copo d`água e,

Bebo.

"O dia inteiro ela esperou que eu chegasse

Para sofrer com a próxima partida"

Tem sede, tem fome, tem calor

Precisa de uma gota de humanidade

Enquanto derruba suas pequenas folhas

À morte certa 
                                          do décimo 
                                                                        andar.

Ameaça se jogar em dias de chuva
Depois floresce a me fazer inveja

Eu que sou sempre poeta em outono

A derramar minhas folhas pelo chão da casa

Ofereço-a um beijo de misericórdia e

Dou-lhe a água que tanto esperava

Pra matar a sede de um novo dia

Pra enfrentar a noite que é sempre fria.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Rebobine

Devolva depois de usar, mas devolva limpo. O prato de comida não deve voltar sujo, deve voltar limpo, ou cheio com outra comida. É uma gentileza, meu filho, uma gentileza. Não se esqueça de agradecer, depois lave as mãos três vezes, antes de dormir. Se apagar as luzes, faça em ordem, primeiro a da sala, depois cozinha, quarto do seu irmão e enfim o seu. Se alguma dessas lâmpadas estiver acesa, recomece. Se olhe no espelho, você é tão bonito, mas vê se não espreme essa espinha para não deixar marca. Seu pai tinha muitas marcas, da época da guerra, era um adolescente apenas e vivia se espremendo. Isso antes de perder parte da pele do rosto, claro, acho até que ficou mais bonito, charmoso. O que está fazendo? Não se pode colocar os cotovelos na mesa, é feio. Levante-se, sente-se, repita. Três vezes. Se fizer de novo ficará de castigo, escovará os dentes não mais do que quatro vezes ao dia, está bom para você? Sem choro, nem vela, é castigo. Aliás, já tomou seu banho? E depois do banho enxugue os meios dos dedos, primeiro o pé esquerdo, depois o direito, da esquerda para a direita, depois repita, no sentido contrário. E depois do banho vem o que? Muito bem, escovar os dentes novamente, mas não se esqueça de lavar a mão ao final, e o rosto também, somente duas vezes está bom. Ah! Claro! Apague a luz está entendendo? Isso é muito importante e, se a luz do outro banheiro estiver acesa, por favor não acenda essa. Como assim? Você sabe que se fizermos tudo direitinho não vai acontecer de usar os dois banheiros ao mesmo tempo, que tolice. Preste atenção, ainda há muito o que aprender, você é um tanto quanto desleixado, mas dá-se um jeito. Olhe que ainda nem falamos das semanas, meu Deus, e quando o inverno chegar. Vamos, vamos, entendeu tudo? Amanha? Oras, amanhã, devolva o prato limpo ou cheio, lave as mãos, apague as luzes, você não entendeu nada? Apenas, repita.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Entre nós

Muito antes de dizer, antes de qualquer coisa, antes de qualquer gole de café, gelado, eu pensei. Pensei que as coisas seriam diferentes se eu fosse uma pessoa melhor, se eu fosse justo, se eu fosse. Não foi, existia apenas uma urgência em estar vivo, uma vontade de seguir em frente sem saber pra onde, uma constante dor me acompanhava dentro do carro, uma força maior me impulsionava caminhando, uma outra forma de pensar me dizia o que fazer em todos os momentos. Gostaria de assumir outros valores, implodir o que ficou pra trás, mas não, melhor não. Grito, em silêncio, que o que passou passou e por favor me deixe em paz. Sei o que é o fel e o mel, sei o que devo dizer, tenho raiva dessa impunidade, tenho amor pelos que tentam, não quero morrer por ser honesto. Também quero o meu quinhão, mas não tão sujo quanto o deles. Me lembro do meu pai me dizendo que todos os dias nascem um trouxa e um esperto e, quando os dois se encontram, dá negócio. Eu realmente desejei esse lugar, do esperto, mas me sinto trouxa, me sinto enganado por uma dúzia de espertos impunes que usam desse poder para vencer, em cima de mim, de você, de nós. Seus filhos crescem no sangue roubado dos que trabalham, dos que batalham. Quero deletar, o que sinto, o que acredito, pra me sentir menos como um peixe morto nesse aquário de água rala. Me dê mais um gole desse vinho, mais um trago desse tabaco, mais uma picada dessa agulha, mais um cheiro desse seu perfume que me seduz, me vicia, me faz sentir o coração pulsando na boca como se fosse a primeira vez. Seu beijo, seco e cinza, beijo de chão quente. Te olho de baixo, me sinto impotente, de pau murcho e magro, tenho fome, sede, lágrimas. Explodo na intensidade dos extremos enquanto você insiste que o erro é dos outros, que o erro é meu, que eu sou pouco pra você e que o preço da gasolina está insatisfatório pra você manter três carros na garagem. Será obrigado a comprar uma bicicleta. A sensação amarga da chuva ácida molhando seus poucos cabelos, isso te incomoda e me molha de entendimento. Tu, ó tu, maldito ladrão de homens, afogue-se nas águas do teu sofrimento e devolva o que é meu. É isso, vou fazer diferente, quero ter o seu lugar, mas não. Pensei não existir mais nada além daqui, de nós, mas me encontrei dentro de mim e hoje farei do meu jeito, da minha maneira. Serei enfim, um rei. Seja feliz, é tudo e é agora, o mundo foi salvo, nessa urgência, paciência. A vida é maior do que nós. Tenho vocês e vocês a mim. Entre nós, é nosso, desamarro. Amém.

"Inspirado no CD: 'Zero e Um' (2004), do Dead Fish - banda nacional. Recomendo. Muito."