Os três poderes apodrecem nos planaltos. Padecem de programas e propostas, perpetuam pífios planos de parlamentares patéticos. Pobres e podres de rico pedem mudanças, para si mesmos e seus pares. Despreparo proporcional ao preconceito, ou vice e versa. Prevalece o excesso de palavrões e preconceitos. Um pouco de protesto da oposição. Parece o passado de novo. Padece o futuro do povo. Prova-se o problema. Segurança pública se resolve com porte de armas. Pow pow pow, parte o coração, do bandido podre, preto e pobre. Planta o pilar do pragmatismo político. Prático e patriótico. Povoa o plenário. Passeia nos parques, armado, preparado para o ataque, ou a defesa pessoal. Coldre pesado. Ponto trinta e oito. Permitido. Primitivo. Parece que o pensar é o único ato proibido.
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
segunda-feira, 26 de junho de 2017
Marcas de Expressão
Exercício de criatividade um. Começa-se sem idéias. Continua sem elas. Persiste. Nada. Solta o lápis e estica as pernas. Pega o lápis de novo. Repassa a sequencia de ações que acabou de suceder. Passa para o papel, ou melhor, transforma em pixels. Sem luz não há escrita, literalmente. Lembro que preciso pagar as contas. As outras, a de luz está paga. Débito automático, como esse que viemos pagar nessa encarnação. Mecanicamente programado para pagar, trabalhar, amar, morrer, voltar ao plano superior, dar corda, descer de novo e por aí vai. Dessa vez como homem. Amanhã como mulher. Depois, bananas.
Não te revolta que os dias um dia acabem para sempre e você não sabe o que vem depois? Se tudo o que te contaram é verdade ou só mais um motivo pra você seguir sem questionar? A sociedade é o irmão mais velho que inventa coisas só pra você ficar quieto.
Às vezes eu desligava o controle da minha irmã do vídeo game e deixava ela apertando os botões para acreditar que ela estava jogando. Hoje a vida faz isso comigo, mas hey, o importante é participar, apertar os botões falsos como se fossem importantes. Acordar cedo todos os dias e ir trabalhar acreditando na construção de uma sociedade melhor que só está ficando pior. Se você parar pra pensar vai ver que tudo está indo para o buraco, menos o seu sorriso de bom dia às sete da manhã. Isso aí é coisa de ator profissional, daqueles do teatro Nô que morreriam se perdessem uma deixa. Você e sua máscara de amplificar caráter.
Você pensa nessas coisas? Eu venho pensando enquanto visto a minha cara de segunda-feira. A cara de sexta é melhorzinha, tem menos marcas de expressão. Não sei se foi se tornando pouco expressiva ao longo da semana ou se a pressão diminuiu mesmo. Um pouco dos dois, o mundo que me molda e eu que me moldo no mundo, ou ao mundo, o que dá no mesmo que a primeira afirmação. Faz diferença? Parece que não.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
Em Tempo
-
Depende, o que é isso a princípio?
- Não
sei, mas não depende de mim o que possa ser.
- Ou
depende e você não quer aceitar.
-
Recuso-me.
- Pois
prossiga sem compreender, se isso te faz bem.
- Me
mata por dentro, mas não quero crer que se eu aceitar entenderei.
- Nada
garante.
- Nem
impede.
-
Concordo, é preciso tentar.
-
Empírico.
-
Experimento auto-social.
- E se
não der certo?
- Já
não está certo, há de piorar?
- Tem
razão, não piora.
- Mas também
não sai de onde está.
-
Melhor assim.
-
Melhor seria se fosse diferente.
- Ou
pior.
- Há de
piorar?
- Deixa
pra lá.
- Pra
depois ou para sempre?
- Pra
outro.
- Ou
outra.
-
Preciso me retirar, você vem?
- Não.
- E pra
onde vai?
-
Espero você voltar.
- Está
frio.
- Eu me
aqueço, e você?
- O
vento me acalma.
-
Parado não há vento.
-
Movimento é mudança.
- Mudar
é bom.
- O bom
é conhecido.
-
Desconheço.
- Agora
eu me vou.
- Não
se vá, encontre-se.
- Sem
saber aonde estou?
- Sabendo
ou não.
- E
como saber?
- Deixa
que eu aponto.
- E se
estiver errada?
-
Pergunto eu, e se?
- Mal
não há de fazer.
- Nem
pode ser pior.
- Então
devo ficar?
- Se
for o melhor.
- Não
há como saber.
- Basta
decidir.
- E
depois?
- O
depois dirá.
- O
futuro é mudo.
- O
futuro é o mundo.
- Mundo
pequeno.
- Mundo
cão.
- Para
onde então?
- Por
aqui mesmo.
- E
você?
- Me dê
a sua mão.
- Não
me pertence.
- Será
minha então.
- Tanto
faz.
- Não
serei dona.
- O que
será?
- Outra
mão apenas.
- Tenho
duas.
- Não
tens nenhuma, esqueceu?
- Está
certo.
- Agora
são três.
- Mãos
do mundo.
- De
ninguém.
- E de
todos.
- Agora
sim.
- O
quê?
- Você
sorriu.
- Não
me pertence.
- Mas
se aproprie.
-
Posso?
- Não.
-
Então?
- Deve.
- Me
obrigue.
-
Agora!
- Está
bem.
- Viu.
- Não
posso olhar.
- Não
te pertencem os olhos também.
-
Exato.
- Use
os meus.
- E
você.
- Não
importa.
- São
belos.
- O que
vê?
-
Vejo-me.
- És
belo também.
- São
seus olhos.
- São
reflexos.
-
Espelhos.
- E espelhos
não mentem.
- Mas
se quebram.
- Ainda
assim.
- Mal
se pode ver.
- Se
juntar os pedaços.
- E se
faltar algum?
- A
gente inventa.
- A
gente?
- Toda
a gente.
- Então
você vem?
- Vou
depois.
-
Depois do que?
- De
você.
- Não
entendo.
- Não
há de entender.
- Vou-me.
-
Lembre-se de mim.
- De
que me vale?
- Só
assim posso viver.
- Pois
se quiser me acompanhe.
- Nos
encontraremos de novo.
-
Quando?
-
Quando, é questão de tempo.
- Não
se aplica?
- Não a
nós.
- Nem
tempo nem espaço.
- Vejo
que agora entende.
- Você
ao menos existe?
-
Pergunte aos filósofos.
- Não
existem mais.
- Então
está respondido.
- Bom,
então, adeus.
- Até
logo.
-
Breve?
- Em
tempo.
quarta-feira, 21 de junho de 2017
O Entorno de Saturno
A um bilhão de
quilômetros da Terra, a humanidade mergulha entres os anéis de Saturno em uma
curva de sessenta e três graus na primeira das vinte aproximações pretendidas
para estudo da composição das majestosas circunferências planetárias que
rodeiam aquele planeta. Aqui em casa, não sei como vou fazer para trabalhar
doze horas do meu dia, entre a saída para o trabalho e o retorno, lavar a
louça, a roupa, passar a roupa também, tomar banho, comer, dormir e ler algum
livro ou fazer qualquer coisa que seja para mim. Em um plano bastante agressivo
a sonda vai sofrer com as forças gravitacionais e ser impulsionada novamente
para fora e se preparar para um novo mergulho, mais análises e fotografias
cósmicas. Depois de jantar preciso agir rapidamente em direção ao que pretendo
fazer durante a noite, se não o fizer, perco o resto do dia sentado no sofá
sapeando por mídias digitais e viajando distâncias imaginárias para Dubai ou
Ubatuba sem sair do sofá. O grupo que vai analisar os dados ficará um longo
período no escuro, sem receber notícias da corajosa sonda até que ela esteja
pronta para emitir novos sinais vitais aos seus tutores terrestres, tudo deve
levar um ou dois dias, não sabemos ao certo. Não são raras as noites que passo
de olhos abertos procurando respostas virtuais para perguntas imediatas e
superficiais que surgiram apenas por eu estar procurando resposta para outras
perguntas imediatas e superficiais, assim mergulho no cosmos de outras vidas
pelas fotografias e dados expostos em seus universos particulares. Após cumprir
sua missão de longos anos, Cassini ficará sem combustível e mergulhará uma
última vez para o denso e obscuro mundo do desconhecido planeta Saturno com uma
triunfal queima de componentes que entraram para o livro dos recordes como o
primeiro show pirotécnico do planeta dos compromissos. Meu compromisso
permanecerá mesmo que eu desapareça em pedaços em um particular show de fogos,
artificiais e belos, enquanto aguardo no escuro a próxima ligação, mensagem ou
sinal divino que me aproxime ou afaste de outro alguém. A humanidade colidirá
com uma nova fronteira, demarcando assim com sua urina metálica territórios
alheios, como sempre fez e continuará fazendo por direito assumido em leis
terráqueas com validade universal indeterminada. Meu mundo colidirá com outro
formando novas partículas de fortes ligações atômicas e será objeto de estudo
para outros planetas em galáxias distantes e menos invasivos do que nós, seres
humanos, de racionalidades duvidosas, enquanto uma chuva de meteoros ofuscará as
lentes de um telescópio apontado de Saturno para cá, construído com os
destroços de uma sonda decaída, feito um anjo que trouxe tecnologia do céu, aos
seres do além mar, ou do além poeira cósmica, não sem antes ameaçar por vinte
vezes colidir com a poeira estelar por ali encontrada. Espero que os estudos
revelem a origem do meu ser, dos anéis que orbitam o meu planeta, das luas que
seguem o rastro infinito desse nado em águas negras, desviando de buracos
destruidores de planetas e enfim, as sondas se encontrem quando Saturno se
alinhar ao signo de Cassini em uma epopeia de explosões universais. Como é belo
e denso o universo e sua gravidade.
terça-feira, 7 de julho de 2015
Retalhos
Retrabalho hábitos envelhecidos
Descrevo contornos embriagados
Escolho peças de lados cortantes
Desvio os olhos da realidade
Em paraísos disfarço essa tristeza
Enroscada na garganta inflamada
Nos bicos dos seios já caídos
De uma grande mãe fragmentada
Descalço pés enlameados
Não os lavo antes de dormir
Encho o colchão de rua quente
Cubro sonhos de concreto armado
Sou pedra de chão mal colocada
Faço tropeçar pernas bambas
Porque escolho ser torto e largo
Mas que me errem os pés suaves
Não faço pouco de quem antes tenta
Nem largo o cheiro do pó do homem
Gosto mesmo é de pisadas fortes
Pisadas que trazem o gosto da morte
Descrevo contornos embriagados
Escolho peças de lados cortantes
Desvio os olhos da realidade
Em paraísos disfarço essa tristeza
Enroscada na garganta inflamada
Nos bicos dos seios já caídos
De uma grande mãe fragmentada
Descalço pés enlameados
Não os lavo antes de dormir
Encho o colchão de rua quente
Cubro sonhos de concreto armado
Sou pedra de chão mal colocada
Faço tropeçar pernas bambas
Porque escolho ser torto e largo
Mas que me errem os pés suaves
Não faço pouco de quem antes tenta
Nem largo o cheiro do pó do homem
Gosto mesmo é de pisadas fortes
Pisadas que trazem o gosto da morte
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Folhas
Olho todos os dias pela janela
Logo na entrada da casa,
à esquerda.
Lá está ela, sempre à espera
A olhar fixamente um horizonte sem fim
Antes de girar a chave da porta e
.
Trancar para fora, o que é de fora
Deixar para dentro o que é dentro.
Ela sorri, como sempre faz essa hora,
(agora)
Eu não vejo,
Ou finjo que não, vejo,
Me sirvo d`um copo d`água e,
Bebo.
"O dia inteiro ela esperou que eu chegasse
Para sofrer com a próxima partida"
Tem sede, tem fome, tem calor
Precisa de uma gota de humanidade
Enquanto derruba suas pequenas folhas
À morte certa
do décimo
andar.
Ameaça se jogar em dias de chuva
Depois floresce a me fazer inveja
Eu que sou sempre poeta em outono
A derramar minhas folhas pelo chão da casa
Ofereço-a um beijo de misericórdia e
Dou-lhe a água que tanto esperava
Pra matar a sede de um novo dia
Pra enfrentar a noite que é sempre fria.
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