segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Letras que são letras e não ousam ser números
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Uma homenagem a um escritor favorito. EraOdito?
Marcelino Freire
Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga, na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa, como todo grande amor, a sua marca.
Amor é o tiro que deram no peito do filho da dona Madalena. E o peito do menino ficou parecendo uma flor. Até a polícia chegar e levar tudo embora. Demorou. Amor que mata. Amor que não tem pena.
Amor é você esconder a arma em um buquê de rosas. E oferecer ao primeiro que aparecer. De carro importado. De vidro fumê. Nada de beijo. Amor é dar um tiro no ente querido se ele tentar correr.
Amor é o bife acebolado que a minha mulher fez para aquele pentelho comer. Filhinho de papai, lá no cativeiro. Por mim, ele morria seco. Mas sabe como é. Coração de mãe não gosta de ver ninguém sofrer.
Amor é o que passa na televisão. Bomba no Iraque. Discussão de reconstrução. Pois é. Só o amor constrói. Edifícios. Condomínios fechados. E bancos. O amor invade. O amor é também o nosso plano de ocupação.
Amor que liberta, meu irmão. Amor que desce o morro. Amor que toma a praça. Amor que, de repente, nos assalta. Sem explicação. Amor salvador. Cristo mesmo quem nos ensinou. Se não houver sangue, meu filho, não é amor.
(ps.: já sinto falta do blog)
sábado, 11 de setembro de 2010
A umidade relativa do ar
-Não posso sair. - ela me disse. - Sou uma fugitiva. Todos estão atrás de mim. CIA, FBI, Scotland Yard e toda a polícia de londres. Terei que me esconder pra sempre.
-Mas estamos no Brasil, aqui você não corre mais riscos.
-Isso é o que você pensa! Eles são espertos e vão nos encontrar.
-O que você fez afinal?
-Não posso contar. Só tenho que ficar escondida. Vai me ajudar ou não?
-Depende. Eu tinha intenções de sair com você, mas depois disso acho que fica inviável. Afinal, não queremos ser pegos, não é mesmo?
Ela me olhou. Entendeu o ar de sarcasmo da frase. Sorriu e disse:
-Tolinho! Mas é isso mesmo, não queremos ser pegos.
-Tudo bem! Posso ficar com você por hoje pelo menos?
-Por hoje? Eu tinha pensando um pouco mais do que isso. - disse ela fazendo bico.
-É uma oferta tentadora, mas eu não corro risco de vida ficando com você?
-Corre, muitos, mas não acha que vale a pena?
-Realmente. Certa vez me disseram que a gente sempre corre riscos, com todo mundo, de ser magoado, deixado na mão ou, no seu caso, de ser pego e provavelmente morto.
-Não seja tão dramático. E foi eu quem te disse isso!
-Ah!
Realmente, havia sido ela e eu não me lembrava. Continuei:
-Que tipo e vilã é você afinal que não tem uma parceira de vilanices?
-Do tipo que tinha uma parceira, mas estava perigoso demais e precisamos nos separar.
-O que aconteceu?
-Nos separamos na última rodoviária. Ela foi pra algum lugar na Antártica e eu vim parar nessa pacata cidade no Brasil. Aliás, que clima ruim tem esse lugar ein! Apesar que de onde eu venho é bem pior. Sabia que a umidade relativa do ar no deserto chega a seis-por-cento, apenas?
-É, já ouvi falar.
Gostava da maneira inteligente que ela falava. Às vezes usava palavras difíceis pra mostrar o quanto era conhecedora do mundo das letras. Não sei se conhecia mesmo ou se usava como havia aprendido, mas como eu mesmo não conhecia o real significado daquelas palavras, aceitava tudo o que ela falava sem questionar. A postura e a certeza com que falava também me impressionavam. A linguagem corporal diz noventa-por-cento do que se quer falar. Pode-se dizer sim com o corpo, dizendo não com a voz. Aprendi com ela também, não por ela ter me falado, mas a observando somente.
-De onde eu venho as vezes bate oito! - ela continuou.
-Oito o que?
-Oito-por-cento. A umidade do ar.
-Poxa. Você mora perto de algum deserto?
Me olhou fazendo careta.
-Claro que não.
-Tudo bem. Me conte porque você e sua parceira de crime se separaram.
-Tocamos o terror por ai. Assustamos algumas criancinhas com nossas caras de más e tivemos que nos separar para os pais furiosos não nos encontrarem.
-Com essa cara ai, assustando criancinhas? Tudo bem, não quer contar não conte.
-Não se preocupe, não foi nada grave.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Ela às vezes ia à janela observar a rua. Afastava a perciana com os dedos e colava o olho no vidro. Fazia tudo aquilo parecer um filme.
-E nós? - perguntei.
-O que tem "nós"?
-O que estamos fazendo afinal?
-Nos escondendo.
-Não foi isso o que perguntei. Quero saber porque você se esconde do mundo, mas permite que eu esteja aqui com você?
-Eu gosto de você, eu acho.
-Eu também gosto de você, mas o que isso significa?
-Significa que tudo está como deveria estar.
-Assim mesmo, dois fugitivos? Não poderiamos estar por ai, andando de mãos dadas, como casais normais?
-Tudo tem seu tempo, bobinho. Além do que, não somos um casal ainda.
-Ainda?
-Foi o que eu disse, tudo tem seu tempo.
-Mas e se algo acontecer e você for pega? Ou se eu for pego?
-Você não está sendo procurado e se eu for pega, não será pra sempre. Você se preocupa demais.
-E você de menos.
-Foi o teu jeito de ser que me ensinou. Certas coisas são simples. O que é nosso é nosso e está guardado. Ninguém pode tirar de nós.
Fiquei em silêncio, com a respiração suspensa. Pensativo.
-Você... sempre dizendo a coisa certa, na hora certa. - conclui.
-Foi o que eu disse. Coisa certa, hora certa, lugar certo. Tudo exatamente como deveria estar.
Sorri.
-Agora vai até a geladeira e pega uma coisa que está la dentro. É uma surpresa pra você. Vai saber o que é quando abrir a porta.
Fui até a cozinha. Abri a geladeira e gritei com a cabeça la dentro.
-Você fez a sua torta pra mim! Finalmente!
Voltei à sala e a encontrei apoiada na janela, à meia luz do cair do dia. A cor do céu refletia na pele branca daquele rosto cheio de fibras presas ao músculo da face, que faziam buraquinhos bem característicos e perfeitos, ainda que assimétricos, naquele rosto que sorria, acentuando as marcas. Trocamos olhares envergonhados. Certos de que tudo realmente estava como deveria estar.
-Sim, fiz pra você. - ela respondeu.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Substrato
e não
no substrato
de tudo o que você compra.
Muito menos
na necessidade,
na ansiedade,
na futilidade,
de querer ter
e não saber ter
o que já tem.
Coma um prato de comida
depois de um grande dia
de fome
e seja feliz.
Só não se esqueça que
depois de um grande dia
de fome,
muitos dormem,
sem comer,
ou morrem.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Migalhas de fumo
-Uma cerveja, por favor.
O homem do bar vai servir a cerveja no copo.
-Não. Eu tomo na garrafa mesmo. Obrigado.
Paga a cerveja ao homem do bar. Acende outro cigarro deixando cair migalhas de fumo na gravata vermelha. Bate o fumo do colo e traga profundamente, olhando para cima. Dá um gole na cerveja e solta a fumaça pelo nariz e pela boca. Com o olhar compenetrado, pensativo, como está, parece um dragão esfumaçando raiva.
-Amigo, você tem amendoins ai?
-Sim, claro.
-Me traga um pouco, estou faminto.
-Mais alguma coisa senhor?
-Você conhece alguém que trabalhe com máquinas de jato de água? Preciso lavar meu carro, mas a minha quebrou.
-Não senhor.
-Tudo bem. Só os amendoins então.
Talvez fosse só isso o problema. Talvez não. Nunca saberemos.
sábado, 21 de agosto de 2010
Poeira
Com a cabeça na altura dos pés, ou seja, no chão, apoiado sobre um pano sujo e molhado com produtos de limpeza, percorri o chão de azulejo branco de minha casa. Quanto mais eu limpava o chão, mais o chão me limpava, então acabei por fazer aquilo com gosto, ao som de alguma música clássica ou alguma ópera, não me lembro. Lembro que tinha violoncelos. Por fim, estava deitado no chão limpo. O chão estava limpo, não eu. Pelo menos não por completo. O resto da minha limpeza, interna, veio depois, na casa de uma amiga.
Um violão, sorrisos e comida no fogo. Preparamos um doce de sobremesa e pronto, eu estava finalmente limpo. Aliás, estou limpo, acho que por completo agora. Claro que sempre fica aquele pensamento de que falta alguém ali, mas isso não é um problema. É só um pensamento. Um bom pensamento que me coloca um sorriso na cara em qualquer momento. Acho que quando este pensamento se concretizar ai sim, estarei pronto pra seguir em frente e manter sempre a minha casa limpa. Afinal, cansei dessa sujeira debaixo do tapete.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Mulheres também jogam Halo 3
-Papai. Papaizinho. Paizinhoooo? - chama minha filha, obviamente querendo mais do que parecia.
-Sim filhinha? - respondo.
-Sabia que eu te amo papai?
-Não, não sabia.
-Ai papaizinho. Claro que sabia! Que coisa feia de se falar! - responde ela fazendo bico.
-O que você quer, criança?
-Como assim o que eu quero? - fazendo cara de inocente.
-Eu te conheço minha filha. Conheço essa sua cara de anjo pidão. Diz o que você quer que eu já te digo não e assim eu posso continuar vendo a luta.
-Ai pai, que coisa feia...
-Se você pedir logo eu falo sim.
-Me compra o jogo do Halo 3!
-Não!
-Mas você disse que...
-Era só pra você desembuchar logo e me deixar assistir a TV.
-Mas...
-Espera, espera... Não sei se eu entendi muito bem, mas você disse "Halo 3"?
-É pai. - disse ela com cara de emburrada.
-Halo 3? O jogo?
-Não! A novela! - fazendo cara de nojo!
-Ow ow ow.. mais respeito com teu velho, menina! - falei olhando feio.
-Você não me respeita! - ela desafiante.
-Eu já te dou casa, comida e roupas. Não precisa de respeito. - falo com carinho.
-Uhmmmmmmm - faz ela, mostrando a língua.
-Tá, tá, agora me explica... desde quando você joga esses jogos? Isso é coisa pra garotos, sabia?
-Não é não! Eu e a mamãe destruímos neste jogo! Semana passada acabei com a raça do Juninho!
-Você e sua mãe? Desde quando sua mãe sabe o que é Halo? Desde quando ela sabe ligar um vídeo-game?
-Ai pai! Como você é ultrapassado! Não sabe de nada. Eu jogo com a mamãe toda semana. Ela me dá cobertura e eu mato todos os ET'zinhos!
-Os ET'zinhos é?
-Sim, aqueles monstros feios e armados até os dentes. Acabamos com todos eles. Alguns até são meio fofinhos mas eu mato também!
-É mesmo? Que coisa. E porque eu nunca fui chamado pra jogar com vocês?
-Jura mesmo que quer saber? - ela faz cara de que é melhor eu não saber.
-Uhmm. Quero! - respondo, incerto se quero mesmo.
-Pai, o senhor perde jogando paciência!!! - ela fala indignada, conseguindo mesmo me rebaixar.
-Mas... - eu me encolho na poltrona porque é verdade, eu perco jogando paciência.
-Não tem "mas...". O senhor joga muito mal que eu já vi. Se colocar o controle na sua mão é capaz de quebrar a TV de tando que mexe os braços.
-Filha eu.. - falo desesperado, tentando me explicar.
-Pai. Aceita. Você é um bom pai, um homem trabalhador e muito honesto... mas pra jogo o senhor simplesmente não serve.
-Ah eu... - tento responder mas não sai mais nada.
Silêncio constrangedor.
Ela tinha razão, eu não sirvo pra jogar mesmo. Eu, o homem da casa, sem dom algum para o vídeo-game, enquanto as mulheres matavam ET'zinhos na minha ausência. "Halo" pra elas deveria ser apenas o buraco no box do banheiro, mas não. Isso era "Halo" pra mim. O buraco no chão do banheiro. Pensei em me enfiar lá.
-Onde vende o jogo mesmo? - pergunto, voltando do meu transe e tentando lembrar quantos anos tem a minha filha pra ser tão esperta daquele jeito.
-No shopping, pai. Eu vou com o senhor mais tarde.
-Não. Vai com a sua mãe, eu preciso de um tempo sozinho. - estava ficando realmente deprimido.
-Ohhhnm paizinho, não fique assim! Eu deixo você jogar, vai!
-Ah... - pausa. - Deixa mesmo? - pergunto com cara de dó.
-Sim. Porque pra eu jogar Halo 3 você também vai ter que comprar o XBOX 360 e nele vem um monte de joguinhos pra crianças que você vai adorar!
Com essa frase de efeito ela saiu, aos pulinhos, provavelmente indo contar pra mãe sobre sua conquista. Eu, jogado fundo na poltrona, vi o final da luta em que o homem em quem eu estava apostando tomou uma surra e perdeu por nocaute. Simpatizei com o homem, derrotado. Me senti naquela luta. Nocauteado. A única diferença entre eu e ele foi que ele apanhou de um barbudo de uns 200 quilos e eu apanhei de uma garotinha que jogou minha dignidade ralo abaixo.
Agora estou aqui contando esta história e jogando paciência.
Prometi pra mim mesmo que não sairia daqui enquanto não ganhasse uma partida. Nem que me levasse a vida inteira.