Ele oferece: - uma dança, minha cara?
-Minha cara? Que careta. Quem dança Bob Dylan?
-No meio de todas essas loucuras, o que você não dançaria? Neste momento, não recusaria nem uma valsa de debutante.
-Eu já debutei há tempos meu "caro", hoje eu labuto pra não dançar mais.
Ele estende a mão e insiste: - uma dança Bob Dyliânica com o caro aqui. Depois disso, curtimos o mundo lá fora, se ele não curtir a gente antes.
-Depende. Tem mais? - oferece a mão a ele.
-Tem, mas pra depois. - puxando -a para si. Agora aproveita o que ja está na sua cabeça... ou vai estar em qualquer minuto.
-Até agora, não senti nada - e explode numa risada insanamente apaixonante.
-Exatamente agora, nessa tua risada, eu senti tudo.
-Então você ja está doidão? Eu devo ser forte pra essas coisas...
-Deve ser.. a certas drogas eu caio de joelhos na primeira risada.
Silêncio.
-Vamos esquecer o mundo. - ela sugere.
-Que mundo? O nosso ou o deles?
-Os dois, criemos um terceiro. Um mundo igualitário, ditatorial, onde todo mundo é obrigado a dançar ao som de Bob Dylan.
-Pensei que você achasse isso loucura.
-Eu acho, mas aqui na loucura, não existe nada mais normal. Um viva a Bob Dylan e a todos que dançam por ele.
-Um brinde.
Brindam copos imaginarios.
Ele continua: - escuta... eu tenho que te falar algo.
-É mesmo necessário?
-Talvez... talvez não.
-Sabe, as vezes as coisas faladas assim, aqui no nosso terceiro mundo - ela ri do próprio trocadilho - podem não ser reais nos outros mundos. No deles, ou no nosso.
-É.. talvez não seja assim tão importante.
Ela afasta o rosto do peito dele e o encara nos olhos.
-Sou curiosa o suficiente pra perguntar uma vez. O que é?
-Deixa, quem sabe outra hora o escritor que nos imagina e fala por nossas bocas crie coragem e escreva em mim o que eu quero lhe dizer.
-É... talvez ele escreva direto em mim mais pra frente nessa nossa história.
-Como assim?
-Certas coisas não precisam ser ditas. Cedo ou tarde ele vai me fazer perceber sóbria algo que eu só percebo assim, inibriada, totalmente aberta aos meus sentimentos.
-Seria mais fácil assim, senhor escritor! - ele fala olhando pra cima.
-Seria mais fácil! - ela grita olhando pra cima também.
Os olhos aos céus se abaixam lentamente e se encaram, observando os céus e viagens astrais um dentro do outro.
-Tão mais fácil... - fala um dos dois.