sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Trezentos Milissegundos

O zunido passou tão perto do meu ouvido que minha única reação foi apreciar sua bela melodia a me dizer que estava tudo bem, que só passou para me acordar. Acordou, de fato. Abri os olhos tomando uma golfada de ar que me expandiu os sentidos e reconstruiu minha vida em um segundo. Menos do que isso na verdade, dizem que o cérebro leva até trezentos milissegundos para processar uma informação. Uma bala na cabeça você só descobre que tomou quando chegar lá em cima - ou lá embaixo - e perguntar o que está acontecendo. Se não houver isso de céu ou inferno você vai viver eternamente naquele último momento, último pensamento, antes do balaço atravessar seus miolos e se alojar em alguma parte do seu crânio. É assim, sua vida não foi interrompida, não deu para apertar o Stop, foi Pause, para sempre. 

Uma explosão ao longe me trouxe de volta. Não o clarão, mas o som, que demora bem mais para chegar, e a pancada no peito. Me joguei no chão junto com todos os outros do lado de cá, do lado que claramente está perdendo. É tiro, porrada e bomba para o nosso lado, gritos, pedras e molotov para o lado deles. Eu quase não acredito no que estou vivendo, nada faz sentido. Sabe quando você fala demais uma palavra e ela simplesmente perde o sentido na sua cabeça, como se não fizesse ligação com nada? Mais ou menos isso, só que com a vida, o espaço-tempo em que eu estava vivendo. Não foi fácil retomar a linha de raciocínio, não foi fácil levantar na multidão para correr para algum lado sem nem lembrar de que lado eu estava. No primeiro passo porém, meu joelho parecia explodir e caí no chão novamente. Parece que foi aí que as coisas voltaram a fazer sentido, ou melhor, sentido não fez, nem nunca vai fazer, mas consegui ordenar as sinapses e reconectar os fios na cabeça até o começo de tudo, assim, talvez em trezentos milissegundos. 

Aliás, uma pessoa que toma uma bala na cabeça e não morre, tem grandes chances de morrer nos trinta dias que se seguirem ao evento e, se não morrer, provavelmente viverá o resto da vida com sequelas. Ainda assim é mais comum o uso de coletes a prova de bala do que capacetes, porque a área do tronco é maior, mais fácil de acertar, mesmo que haja maiores chances de sobreviver dependendo de onde o tiro acertar. Talvez se alguém colocar na ponta do lápis e calcular probabilidades, verá que de um lado a chance de acertar a cabeça é menor, mas o risco de morrer é maior e, no resto do corpo, vale a lógica inversa. Quem será que ganha? 

Pensando nisso, em quem será que ganha, meu cérebro deu um tranco e acelerou até o começo dessa história. A única palavra que me veio como resposta ao que vi e vivi nos últimos cinco anos foi: patético. O passado é patético e o futuro... não há.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Podres Poderes

Os três poderes apodrecem nos planaltos. Padecem de programas e propostas, perpetuam pífios planos de parlamentares patéticos. Pobres e podres de rico pedem mudanças, para si mesmos e seus pares. Despreparo proporcional ao preconceito, ou vice e versa. Prevalece o excesso de palavrões e preconceitos. Um pouco de protesto da oposição. Parece o passado de novo. Padece o futuro do povo. Prova-se o problema. Segurança pública se resolve com porte de armas. Pow pow pow, parte o coração, do bandido podre, preto e pobre. Planta o pilar do pragmatismo político. Prático e patriótico. Povoa o plenário. Passeia nos parques, armado, preparado para o ataque, ou a defesa pessoal. Coldre pesado. Ponto trinta e oito. Permitido. Primitivo. Parece que o pensar é o único ato proibido.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Marcas de Expressão

Exercício de criatividade um. Começa-se sem idéias. Continua sem elas. Persiste. Nada. Solta o lápis e estica as pernas. Pega o lápis de novo. Repassa a sequencia de ações que acabou de suceder. Passa para o papel, ou melhor, transforma em pixels. Sem luz não há escrita, literalmente. Lembro que preciso pagar as contas. As outras, a de luz está paga. Débito automático, como esse que viemos pagar nessa encarnação. Mecanicamente programado para pagar, trabalhar, amar, morrer, voltar ao plano superior, dar corda, descer de novo e por aí vai. Dessa vez como homem. Amanhã como mulher. Depois, bananas. 

Não te revolta que os dias um dia acabem para sempre e você não sabe o que vem depois? Se tudo o que te contaram é verdade ou só mais um motivo pra você seguir sem questionar? A sociedade é o irmão mais velho que inventa coisas só pra você ficar quieto. 

Às vezes eu desligava o controle da minha irmã do vídeo game e deixava ela apertando os botões para acreditar que ela estava jogando. Hoje a vida faz isso comigo, mas hey, o importante é participar, apertar os botões falsos como se fossem importantes. Acordar cedo todos os dias e ir trabalhar acreditando na construção de uma sociedade melhor que só está ficando pior. Se você parar pra pensar vai ver que tudo está indo para o buraco, menos o seu sorriso de bom dia às sete da manhã. Isso aí é coisa de ator profissional, daqueles do teatro Nô que morreriam se perdessem uma deixa. Você e sua máscara de amplificar caráter. 

Você pensa nessas coisas? Eu venho pensando enquanto visto a minha cara de segunda-feira. A cara de sexta é melhorzinha, tem menos marcas de expressão. Não sei se foi se tornando pouco expressiva ao longo da semana ou se a pressão diminuiu mesmo. Um pouco dos dois, o mundo que me molda e eu que me moldo no mundo, ou ao mundo, o que dá no mesmo que a primeira afirmação. Faz diferença? Parece que não.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Em Tempo

                - E então, qual é o sentido disso?
                - Depende, o que é isso a princípio?
                - Não sei, mas não depende de mim o que possa ser.
                - Ou depende e você não quer aceitar.
                - Recuso-me.
                - Pois prossiga sem compreender, se isso te faz bem.
                - Me mata por dentro, mas não quero crer que se eu aceitar entenderei.
                - Nada garante.
                - Nem impede.
                - Concordo, é preciso tentar.
                - Empírico.
                - Experimento auto-social.
                - E se não der certo?
                - Já não está certo, há de piorar?
                - Tem razão, não piora.
                - Mas também não sai de onde está.
                - Melhor assim.
                - Melhor seria se fosse diferente.
                - Ou pior.
                - Há de piorar?
                - Deixa pra lá.
                - Pra depois ou para sempre?
                - Pra outro.
                - Ou outra.
                - Preciso me retirar, você vem?
                - Não.
                - E pra onde vai?
                - Espero você voltar.
                - Está frio.
                - Eu me aqueço, e você?
                - O vento me acalma.
                - Parado não há vento.
                - Movimento é mudança.
                - Mudar é bom.
                - O bom é conhecido.
                - Desconheço.
                - Agora eu me vou.
                - Não se vá, encontre-se.
                - Sem saber aonde estou?
                - Sabendo ou não.
                - E como saber?
                - Deixa que eu aponto.
                - E se estiver errada?
                - Pergunto eu, e se?
                - Mal não há de fazer.
                - Nem pode ser pior.
                - Então devo ficar?
                - Se for o melhor.
                - Não há como saber.
                - Basta decidir.
                - E depois?
                - O depois dirá.
                - O futuro é mudo.
                - O futuro é o mundo.
                - Mundo pequeno.
                - Mundo cão.
                - Para onde então?
                - Por aqui mesmo.
                - E você?
                - Me dê a sua mão.
                - Não me pertence.
                - Será minha então.
                - Tanto faz.
                - Não serei dona.
                - O que será?
                - Outra mão apenas.
                - Tenho duas.
                - Não tens nenhuma, esqueceu?
                - Está certo.
                - Agora são três.
                - Mãos do mundo.
                - De ninguém.
                - E de todos.
                - Agora sim.
                - O quê?
                - Você sorriu.
                - Não me pertence.
                - Mas se aproprie.
                - Posso?
                - Não.
                - Então?
                - Deve.
                - Me obrigue.
                - Agora!
                - Está bem.
                - Viu.
                - Não posso olhar.
                - Não te pertencem os olhos também.
                - Exato.
                - Use os meus.
                - E você.
                - Não importa.
                - São belos.
                - O que vê?
                - Vejo-me.
                - És belo também.
                - São seus olhos.
                - São reflexos.
                - Espelhos.
                - E espelhos não mentem.
                - Mas se quebram.
                - Ainda assim.
                - Mal se pode ver.
                - Se juntar os pedaços.
                - E se faltar algum?
                - A gente inventa.
                - A gente?
                - Toda a gente.
                - Então você vem?
                - Vou depois.
                - Depois do que?
                - De você.
                - Não entendo.
                - Não há de entender.
                - Vou-me.
                - Lembre-se de mim.
                - De que me vale?
                - Só assim posso viver.
                - Pois se quiser me acompanhe.
                - Nos encontraremos de novo.
                - Quando?
                - Quando, é questão de tempo.
                - Não se aplica?
                - Não a nós.
                - Nem tempo nem espaço.
                - Vejo que agora entende.
                - Você ao menos existe?
                - Pergunte aos filósofos.
                - Não existem mais.
                - Então está respondido.
                - Bom, então, adeus.
                - Até logo.
                - Breve?
                - Em tempo.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sobre mim

Esse blog é uma forte fonte de consulta quando eu quiser me lembrar de mim.

O Entorno de Saturno

A um bilhão de quilômetros da Terra, a humanidade mergulha entres os anéis de Saturno em uma curva de sessenta e três graus na primeira das vinte aproximações pretendidas para estudo da composição das majestosas circunferências planetárias que rodeiam aquele planeta. Aqui em casa, não sei como vou fazer para trabalhar doze horas do meu dia, entre a saída para o trabalho e o retorno, lavar a louça, a roupa, passar a roupa também, tomar banho, comer, dormir e ler algum livro ou fazer qualquer coisa que seja para mim. Em um plano bastante agressivo a sonda vai sofrer com as forças gravitacionais e ser impulsionada novamente para fora e se preparar para um novo mergulho, mais análises e fotografias cósmicas. Depois de jantar preciso agir rapidamente em direção ao que pretendo fazer durante a noite, se não o fizer, perco o resto do dia sentado no sofá sapeando por mídias digitais e viajando distâncias imaginárias para Dubai ou Ubatuba sem sair do sofá. O grupo que vai analisar os dados ficará um longo período no escuro, sem receber notícias da corajosa sonda até que ela esteja pronta para emitir novos sinais vitais aos seus tutores terrestres, tudo deve levar um ou dois dias, não sabemos ao certo. Não são raras as noites que passo de olhos abertos procurando respostas virtuais para perguntas imediatas e superficiais que surgiram apenas por eu estar procurando resposta para outras perguntas imediatas e superficiais, assim mergulho no cosmos de outras vidas pelas fotografias e dados expostos em seus universos particulares. Após cumprir sua missão de longos anos, Cassini ficará sem combustível e mergulhará uma última vez para o denso e obscuro mundo do desconhecido planeta Saturno com uma triunfal queima de componentes que entraram para o livro dos recordes como o primeiro show pirotécnico do planeta dos compromissos. Meu compromisso permanecerá mesmo que eu desapareça em pedaços em um particular show de fogos, artificiais e belos, enquanto aguardo no escuro a próxima ligação, mensagem ou sinal divino que me aproxime ou afaste de outro alguém. A humanidade colidirá com uma nova fronteira, demarcando assim com sua urina metálica territórios alheios, como sempre fez e continuará fazendo por direito assumido em leis terráqueas com validade universal indeterminada. Meu mundo colidirá com outro formando novas partículas de fortes ligações atômicas e será objeto de estudo para outros planetas em galáxias distantes e menos invasivos do que nós, seres humanos, de racionalidades duvidosas, enquanto uma chuva de meteoros ofuscará as lentes de um telescópio apontado de Saturno para cá, construído com os destroços de uma sonda decaída, feito um anjo que trouxe tecnologia do céu, aos seres do além mar, ou do além poeira cósmica, não sem antes ameaçar por vinte vezes colidir com a poeira estelar por ali encontrada. Espero que os estudos revelem a origem do meu ser, dos anéis que orbitam o meu planeta, das luas que seguem o rastro infinito desse nado em águas negras, desviando de buracos destruidores de planetas e enfim, as sondas se encontrem quando Saturno se alinhar ao signo de Cassini em uma epopeia de explosões universais. Como é belo e denso o universo e sua gravidade.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Retalhos

Retrabalho hábitos envelhecidos
Descrevo contornos embriagados
Escolho peças de lados cortantes
Desvio os olhos da realidade
Em paraísos disfarço essa tristeza
Enroscada na garganta inflamada
Nos bicos dos seios já caídos
De uma grande mãe fragmentada
Descalço pés enlameados
Não os lavo antes de dormir
Encho o colchão de rua quente
Cubro sonhos de concreto armado
Sou pedra de chão mal colocada
Faço tropeçar pernas bambas
Porque escolho ser torto e largo
Mas que me errem os pés suaves
Não faço pouco de quem antes tenta
Nem largo o cheiro do pó do homem
Gosto mesmo é de pisadas fortes
Pisadas que trazem o gosto da morte

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Folhas

Olho todos os dias pela janela

Logo na entrada da casa, 

                                          à esquerda.

Lá está ela, sempre à espera

A olhar fixamente um horizonte sem fim


Detenho um gesto no corredor.
Antes de girar a chave da porta e

.

Trancar para fora, o que é de fora

Deixar para dentro o que é dentro.

Ela sorri, como sempre faz essa hora,
(agora)

Eu não vejo,

Ou finjo que não, vejo,

Me sirvo d`um copo d`água e,

Bebo.

"O dia inteiro ela esperou que eu chegasse

Para sofrer com a próxima partida"

Tem sede, tem fome, tem calor

Precisa de uma gota de humanidade

Enquanto derruba suas pequenas folhas

À morte certa 
                                          do décimo 
                                                                        andar.

Ameaça se jogar em dias de chuva
Depois floresce a me fazer inveja

Eu que sou sempre poeta em outono

A derramar minhas folhas pelo chão da casa

Ofereço-a um beijo de misericórdia e

Dou-lhe a água que tanto esperava

Pra matar a sede de um novo dia

Pra enfrentar a noite que é sempre fria.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Rebobine

Devolva depois de usar, mas devolva limpo. O prato de comida não deve voltar sujo, deve voltar limpo, ou cheio com outra comida. É uma gentileza, meu filho, uma gentileza. Não se esqueça de agradecer, depois lave as mãos três vezes, antes de dormir. Se apagar as luzes, faça em ordem, primeiro a da sala, depois cozinha, quarto do seu irmão e enfim o seu. Se alguma dessas lâmpadas estiver acesa, recomece. Se olhe no espelho, você é tão bonito, mas vê se não espreme essa espinha para não deixar marca. Seu pai tinha muitas marcas, da época da guerra, era um adolescente apenas e vivia se espremendo. Isso antes de perder parte da pele do rosto, claro, acho até que ficou mais bonito, charmoso. O que está fazendo? Não se pode colocar os cotovelos na mesa, é feio. Levante-se, sente-se, repita. Três vezes. Se fizer de novo ficará de castigo, escovará os dentes não mais do que quatro vezes ao dia, está bom para você? Sem choro, nem vela, é castigo. Aliás, já tomou seu banho? E depois do banho enxugue os meios dos dedos, primeiro o pé esquerdo, depois o direito, da esquerda para a direita, depois repita, no sentido contrário. E depois do banho vem o que? Muito bem, escovar os dentes novamente, mas não se esqueça de lavar a mão ao final, e o rosto também, somente duas vezes está bom. Ah! Claro! Apague a luz está entendendo? Isso é muito importante e, se a luz do outro banheiro estiver acesa, por favor não acenda essa. Como assim? Você sabe que se fizermos tudo direitinho não vai acontecer de usar os dois banheiros ao mesmo tempo, que tolice. Preste atenção, ainda há muito o que aprender, você é um tanto quanto desleixado, mas dá-se um jeito. Olhe que ainda nem falamos das semanas, meu Deus, e quando o inverno chegar. Vamos, vamos, entendeu tudo? Amanha? Oras, amanhã, devolva o prato limpo ou cheio, lave as mãos, apague as luzes, você não entendeu nada? Apenas, repita.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Entre nós

Muito antes de dizer, antes de qualquer coisa, antes de qualquer gole de café, gelado, eu pensei. Pensei que as coisas seriam diferentes se eu fosse uma pessoa melhor, se eu fosse justo, se eu fosse. Não foi, existia apenas uma urgência em estar vivo, uma vontade de seguir em frente sem saber pra onde, uma constante dor me acompanhava dentro do carro, uma força maior me impulsionava caminhando, uma outra forma de pensar me dizia o que fazer em todos os momentos. Gostaria de assumir outros valores, implodir o que ficou pra trás, mas não, melhor não. Grito, em silêncio, que o que passou passou e por favor me deixe em paz. Sei o que é o fel e o mel, sei o que devo dizer, tenho raiva dessa impunidade, tenho amor pelos que tentam, não quero morrer por ser honesto. Também quero o meu quinhão, mas não tão sujo quanto o deles. Me lembro do meu pai me dizendo que todos os dias nascem um trouxa e um esperto e, quando os dois se encontram, dá negócio. Eu realmente desejei esse lugar, do esperto, mas me sinto trouxa, me sinto enganado por uma dúzia de espertos impunes que usam desse poder para vencer, em cima de mim, de você, de nós. Seus filhos crescem no sangue roubado dos que trabalham, dos que batalham. Quero deletar, o que sinto, o que acredito, pra me sentir menos como um peixe morto nesse aquário de água rala. Me dê mais um gole desse vinho, mais um trago desse tabaco, mais uma picada dessa agulha, mais um cheiro desse seu perfume que me seduz, me vicia, me faz sentir o coração pulsando na boca como se fosse a primeira vez. Seu beijo, seco e cinza, beijo de chão quente. Te olho de baixo, me sinto impotente, de pau murcho e magro, tenho fome, sede, lágrimas. Explodo na intensidade dos extremos enquanto você insiste que o erro é dos outros, que o erro é meu, que eu sou pouco pra você e que o preço da gasolina está insatisfatório pra você manter três carros na garagem. Será obrigado a comprar uma bicicleta. A sensação amarga da chuva ácida molhando seus poucos cabelos, isso te incomoda e me molha de entendimento. Tu, ó tu, maldito ladrão de homens, afogue-se nas águas do teu sofrimento e devolva o que é meu. É isso, vou fazer diferente, quero ter o seu lugar, mas não. Pensei não existir mais nada além daqui, de nós, mas me encontrei dentro de mim e hoje farei do meu jeito, da minha maneira. Serei enfim, um rei. Seja feliz, é tudo e é agora, o mundo foi salvo, nessa urgência, paciência. A vida é maior do que nós. Tenho vocês e vocês a mim. Entre nós, é nosso, desamarro. Amém.

"Inspirado no CD: 'Zero e Um' (2004), do Dead Fish - banda nacional. Recomendo. Muito."

sábado, 14 de fevereiro de 2015

São Jorge

Saio às pressas de encontro à rua, atravessando a porta de casa. Devolvo aos pulmões o ar que lhes roubei. Caminho pela calçada pensando no que pode acontecer. Uma multidão se materializa na minha frente, cruzando pela esquina mais movimentada da cidade. Revolução, o povo está na rua, todos cantam, todos estão felizes e ensandecidos pela união. Amor, lute pelos teus direitos e peça a São Jorge para que não chova. Vi a multidão como um corpo só a se locomover pra frente, para o progresso, para o protesto. Uma garota me pinta o rosto em coloridos, escreve alguma coisa na minha testa. Sorrio, ela me beija a boca molhada e vai embora. Um rapaz me entrega um copo de cerveja. Espere, não se faz revolução dessa maneira. Que canção estão cantando? Caminhando e cantando... O que estão pedindo e protestando, que motivo leva tantas pessoas à rua em tamanha união? Onde estão as cobranças pelos altos impostos, pela água, pelo crescimento geral desta nação. Não é revolução. E aquela garota? Não era amor? Alguém me responde: não. Era apenas carnaval.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Estação

Sigo. Sozinho. Às vezes eu olho ao redor, nos rostos das pessoas que passam, os transeuntes, e penso, ou penso que penso, será que eles estão lá, será que todos estão vendo também? São espíritos errantes que não aceitaram o fim. Que fim? Serei eu um espírito que não admite o fim? Que fim?

As mil-e-uma toxinas do cigarro amarelaram a minha barba, o tempo corroeu os meus dentes e roubou o meu sorriso, a vida comeu minha alma a garfo e faca e agora eu apodreço, sentado, fumando. Devolvo os filmes na locadora e pego mais três, sento para assistir, muitas vezes o mesmo filme sem ter certeza se já assisti ou não. O cara da locadora me olha como se eu fosse louco. Fico confuso, também não sei se sou louco ou não. Devolvo, pego mais três, de novo não sei se já vi, tenho a vista ruim e não sei onde coloquei os meus óculos. Também tanto faz, quanto menos eu vejo, mais eu posso me dar ao luxo de assistir o mesmo filme vez após outra.

Acendo o cigarro, sirvo o gole, bufo a vida pra fora da boca, aspiro álcool, devolvo cara feia, trago, assopro, trago, guardo, assopro, trago, bebo mais um gole, tusso com os olhos vermelhos, morro mais uma vez no beijo do copo, no sexo oral com a nicotina, te chupo, me chupe, me morda, devolva a minha vida, sorrio, enfim, sorrio.

Acordo no sofá com o DVD na tela de menu inicial. Dou o play, durmo de novo, acordo sete minutos depois, a cabeça dói, a boca gruda, parece que masquei cola bastão, bebo água suja, da torneira da cozinha. A cabeça dói, o olho dói, os joelhos doem. Deito na cama com os olhos lacrimejando, com remelas nos cantos que coço sentindo os dedos ásperos, tudo dói, sinto medo, meu peito dói.

O relógio chama as 12 horas, ereto. O pau duro do dia, pronto pra gozar na minha cara mais um resto de dia, que eu bebo em goles de cachaça, em tragos de cigarros filados dos bêbados das padarias. Sinto fome, muita fome. Deixo meu corpo rolar pra fora da cama seguindo um ritual até colocar a coluna no lugar. Chacoalho a mão esquerda que dorme e sinto o sangue alfinetando as pontas dos meus dedos. Sigo até a geladeira, no caminho tusso, tusso muito, um escarro preto percorre o meu sistema respiratório trazendo um gosto putrefaço à minha boca, o gosto de dentro, gosto de mim, gosto de alma inerte. Questiono porque comecei a fumar, perco a fome por um segundo e encaro a geladeira de longe. Preciso comer qualquer coisa, cuspo o resto da mistura de alcatrão e órgãos internos. Minhas tripas roncam de novo, abro a porta da geladeira e vejo pedaços de mim ali dentro, não tenho vontade de nada, mas o ronco reclama na boca do meu estomago e me obriga a pegar uma caixa de leite que dorme na porta. Cheiro, parece estar bom, bebo um gole para testar, não consigo conter a fome e bebo meia caixa do leite que desce doendo, abrindo caminho pela garganta inflamada, seca, escarrada. Me sinto todo fodido. O DVD continua tocando no menu, de novo e outra vez.

Olho pra estante do outro lado da sala, visão que tenho dali da geladeira mesmo. Meus olhos embaçados não enxergam, mas sabem o que veem lá. A foto dela me encara, ao lado de mais três porta-retratos, que sorriem. Lembro da casa cheia, lembro de quando ainda enxergava o caminho, lembro de ter pedido pra ela não ir, sinto uma dor forte no braço esquerdo, lembro de ter chorado, a dor toma conta de mim, o leite cai, ela fecha a porta, as crianças choram, os vermes me comem, a porta se abre, não há ninguém do outro lado, eu choro, meu peito chora, meus joelhos doem ao acertar o chão, o caixão se fecha, os olhos encaram, as crianças e ela não voltam, eu não volto, não posso, não consigo.

O leite molha a minha cara colada ao chão, meu braço direito perde as forças e treme, minhas pernas procuram por onde caminhar, a respiração enfraquece. Por que? Ela não volta, eu peço que volte, eu pergunto a Deus onde ela está? Vou encontrá-la? Meus filhos, minha família, aquele maldito trem, aquele trilho sem manutenção, ela fugia pra casa da mãe dela porque eu bebia demais, eu choro, eu me lembro de tudo agora, eu não quero ir embora, eu não quero que ela vá embora. Os vermes consomem o que restou dos meus olhos, minhas tripas, eu inteiro espero alguém me encontrar ali naquele chão, espero o leite começar a feder, espero a primeira pá de terra, espero não voltar nunca mais, nunca mais.

Fecho os olhos, morro, acordo no sofá. Acendo um cigarro, tenho sede. A cabeça dói. Os porta-retratos continuam sorrindo e eu, sumindo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Chovemos

É terça feira
A chuva cai, desmotivada
O moinho gira, mas não quebra pedras
A vida passa, mas
Não dá passagem

Quem vem às pressas
É a mãe daquele rapaz que
Foi morto na rua
Três tiros e adeus
Ela chora. Chove

Depois vem o bêbado
Dançando rua acima
Desviando dos pés que
Mal lhe calçam os sapatos
Ele não chove

Quando ela sai de casa
É o centro, da cidade,
Das atenções dos olhos
Atentos que desejam,
A cabeça de guarda chuva

Eu, observo
Bebo e observo, café e pessoas
Nessa ordem, um gole, um homem
Uma mulher, um mendigo,
O cão que bebe, a água da chuva

Chovemos, choramos, sorrimos

Somos todos gotas d’agua

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Espelho meu

Converso com alguém grudado na parede do meu banheiro. Eu sei que este alguém sou eu mesmo em meu pequeno espelho de parede com moldura laranja, desses que os velhos fazem a barba em filmes cults. Meu espelho no final sempre foi o único que me guiou até mim mesmo. A resposta pronta pra pergunta que rasga eras e destroça cabeças fracas com balas de trêsoitão: quem sou eu afinal? Concordo que o reflexo não é dos melhores, mas vale a reflexão. "O senhor tem um belo nariz, grande e batatudo. Os olhos mais pra lá do que pra cá e a boca... a boca é bonita, tem belos dentes, só poderia escová-los melhor, não acha?". Acho, mas a preguiça mata, dá tártaro na boca e no vão dos dedos, nas juntas, no joelho. Chamam de esporão o que não ta na boca (mesmo sendo outra coisa que não é tártaro), eu chamo de dor aguda, ou dor do caralho mesmo, pra resumir. O médico falou pra tomar cuidado ao me mexer. Não se preocupe doutor, não pretendo mudar minha vida de sedentário ativo pra desafiar meus ossos que se rebelam contra mim, apontando pra onde dói mais que é o lado de dentro. Me mantenho então quietinho mesmo, mais uma semana e outra, privando o mundo da minha beleza e de todo o meu talento para o nada. E mais um dia - hora - minuto se vão, outros copos de água suja e o peixinho sempre no aquário. Algum dia esse peixe acorda de ponta cabeça, ou eu, vai saber...

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Óculos escuros

Ela se deita na areia da praia esticando as pernas o máximo que pode, e os braços também. Espreguiça-se por que tem preguiça de todo o resto do mundo. Está de bikini e tem um belo corpo, com umas dobrinhas aqui e ali, mas um lindo corpo. É branca de doer os olhos, mas assim na areia parece um anjo - ou anja, pra não ser alvo de protestos - se deliciando com o banho de sol que mais tarde vai avermelhar sua pele e doer muito enquanto ela pensa "por que raios eu não fico morena?". É feita assim, pra ser branca e as vezes vermelha mesmo. Morena nunca, mas é de invejar a sua luta contra a natureza das cores. Tentei explicar certa vez que era coisa das melaninas, que eu tinha visto isso em alguma aula no colegial, mas ela insistia em se queimar e se lamentar da dor. Naquele dia, ela me olhou através dos óculos escuros e disse algo que eu não consigo me lembrar, porque estava pensando comigo mesmo "com olhos tão bonitos como os dela eu jamais usaria óculos escuros".

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Morfossintáxe

Escrever, verbo, infinitivo. Infinito em possibilidades. Ainda assim, tão simples, com a pequena intenção de registrar algo em papel ou, nesse caso, no computador, na nuvem, no céu escuro embaixo de alguma geleira. Palavra por palavra, registra-se, ou por um lado mais metafórico, registro-me. Combinações precárias de 26 letras ordenadas em grupos e galeras e multidões, formando assim um texto. Ou, abre aspas, um pretexto, fecha aspas. Colocar-se pra fora ou aprofundar-se olhando pra dentro de si. Ver o invisível que se perde no ar da fala e emudecer o som díspar das vozes dos homens, para dar lugar ao belo som de dentro de nós. - Aquela voz interior que lê os livros para você, sabe - . Voz de mãe e pai juntos, falando enquanto a mente sonolenta sorve o espesso caldo dessa sopa de letrinhas que chamamos de alfabeto. Escrever. Ato contínuo e viciante. Droga que expõe o imaginário ao mundo real e que, se acumulada por muito tempo, explode pra dentro causando febre e ansiedade. Dá falta de ar. 

Libertar-se enfim. Escrever é libertar-se. 

Como é limitado quem vive de dicionários.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Poema de gaveta

Nos teus braços
adormece a solidão
de nós

Dos abraços cansados,
do afago e do amor

Do gosto de vida suada,
do suor cheio de sal.

O sal do oceano.

Que banha o que resta
do que um dia
fomos nós

Sós,
apenas nós
sós.

sábado, 1 de junho de 2013

Cotidianas

Andando pelas ruas de dentro de casa eu me lembro das marcas de minha infância. Ruas por onde disputei sozinho grandes corridas de carros velozes e coloridos. Corridas que por vezes perdi e, por não aceitar a derrota, me convencia de que eu estava no outro carro, o vencedor. Nesta mesma casa, andei colado nas paredes fingindo ser um grande espião, invisível e mortal, cheio de artimanhas e instrumentos de espionagem moderna como os binóculos que eu fazia com minhas próprias mãos ou as luvas com ventosas que eu improvisava com meias velhas. Assim, eu espionava a casa, entrava nos quartos imperceptível e assustava a mocinha que trabalhava em casa. Anos depois eu entendi que ela se deixava assustar para me alegrar, mas disse também que as vezes se sentia vigiada sem saber se eu estava realmente por perto.

A moça era bonita em minha memória, mas realmente feia nas fotografias. Eu, mais do que todos na casa, convivia com ela diariamente e acompanhava com minhas brincadeiras os serviços domésticos que ela executava com maestria. Mesmo assim, minha mãe ainda reclamava de um copo mal lavado ou um móvel empoeirado. Ela seguia então limpando e eu observando os novos cheiros da casa limpa.

Os anos se passaram e ela também passou, lavou, cozinhou e se dedicou a cada centímetro daquela casa. Cada dia mais cansada e eu cada dia mais distante. Passaram-se as férias e eu pouco tempo tinha para espionar os serviços domésticos. Mudamos de casa e ela continuou conosco. Tive que partir para abraçar o mundo enquanto ela continuava abraçando as almofadas para tirar o pó do sofá. Aos poucos, ela dentro de casa se tornou o silêncio que eu tanto gostava de ouvir. A casa se limpando sozinha, trocando de pele, de cheiros e gostos. Minha cama sempre posta para os dias de visita e a mesa sempre farta em noites frias. Ela, silenciosa, preencheu os vazios da vida cotidiana.

Hoje, quando limpo minha própria casa, sinto que é ela  quem me observa, analisando se aprendi direito tudo o que me ensinou enquanto eu brincava. E assim eu retiro o pó dos cantos da casa. Lavo-me e passo-me enquanto lavo e passo as minhas roupas. Termino o dia limpo, com apenas um pensamento fora do lugar. Gostaria de me lembrar do nome dela.

domingo, 7 de abril de 2013

Fragmentos

Penso o passo em um lampejo
E realizo os tons em notas de realejo
Lendo Álvaro de Campos eu vejo
O poema que sempre desejo,
Escrever para a morte antes do beijo

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Escrevo assim pra me entender
Escrevo para mim, para sobreviver
Sebrescrevendo o que quero dizer
Em letras que possam adormecer
No coração de quem quiser ler
E talvez, contrário a mim, me esclarecer

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No cigarro, a fumaça do passado amarga o instante
Na bebida, o gosto do amado tão distante
E na razão boba de quem arruma os sonhos na estante
Esperando dividi-los com seu amante
A certeza de que o caminho restante
Trará de volta a paz e o amor de antes

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Outro trago, outro gole e outro pensamento
Voltando-se mais uma vez para dentro
Para onde nasce o tédio e o contentamento
E a certeza de amar o belo e o sem talento
Cala o medo do sofrimento
Devolvendo à boca o sorriso lento

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Como deste amor com a boca rasgada
E os pedaços do teu sorriso remonto de madrugada
Me olhando no espelho de cara borrada
Encarando todos os defeitos de uma vida passada
Apago a luz então cansada
E me deito, sozinha,sonhando outra vez, acordada.

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Não penso, não paro, não socializo
A resposta do louco é sempre o sorriso
A rima da rima tende ao infinito
Quando penso o que quero, paro e reflito
Quando não penso, não paro e simplesmente, realizo